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A Música Popular Brasileira Como Caricatura Politica
Os políticos brasileiros sempre serviram de inspiração aos compositores populares. Alguns, como Getúlio Vargas, consagraram este estilo transformando-se em alvo de marchinhas picantes. Outros, sabendo da força que a música tem junto ao povo, chegaram a fazer encomendas pessoais. Tudo na surdina.A história oficial de um país é sempre idólatra, ufanista, apologética e parcial. E isso não é escapismo só nosso, estamos bem acompanhados na escamoteação. O indômito General Custer, herói americano imbatível em filmes e livros, quis fazer do massacre indígena plataforma política para chegar à Presidência. O tiro, ou melhor, a flexada, saiu pela culatra e seu exército acabou dizimado. Kipling, o doce escritor, e Baden Powel, o fundador do escotismo, foram imperialistas ferrenhos. Alfredo Nobel tentou fundar um Instituto de Eutanásia. Wellington derrotou Napoleão e no currículo ordenou o massacre de operários. A lista é por demais cansativa. Os nossos vultos históricos não fogem à regra. São destemidos super-homens, imaculados, sem um humano deslize. A MPB vem fazendo até hoje eco às versões do poder, com raras exceções. A maioria dos sambas-enredos não passa de louvaminha. Santos Dumont, gênio incontestável, tem, sem dúvida, muita empatia e carisma. Escritores respeitáveis como Marcio de Souza e Francisco Assis Barbosa se interessaram por sua personalidade. A música popular não ficou insensível ao seu fascínio, sendo um dos personagens mais abordados. Seu suicídio em 1932 parece segredo de Estado. Espalhou-se a pueril versão de que morrera de desgosto por ter sua invenção se transformado em arma destruidora. É certo que o avião não lhe trouxe a compensação esperada. É lhe atribuída uma frase: "Prefiro ficar cego a ver bombardeios aéreos". Em 1928, ao voltar definitivamente ao Brasil, assistiu do convés do navio à queda do avião com seu nome, que conduzia amigos, no mar. Entrevistado por Assis Chateaubriand em 1929 declarou entusiasmado ao repórter: "Dado ao estado atual da navegação aérea, reputo o hidroavião mais prático para o Brasil, pondo o litoral em comunicação permanente com o sertão". "Falou-me ainda, conta Chatô, com entusiasmo, no desenvolvimento da aviação entre nós, acompanhando tudo com carinho e vivo interesse". Como curiosidade o entrevistador revela que Santos Dumont falava em voltar à Europa para fazer experiências no inverno com seu transformador marciano. A engenhoca era um aparelho baseado na eletricidade destinado a ajudar o homem a marchar e praticar alpinismo, subir ladeiras, escarpas e montanhas, "como se carregasse asas sob os braços". O aparelho transmitia poderosa força aos músculos através de estímulos elétricos. Recentemente a ciência criou um estimulador baseado nos mesmos princípios e que tem auxiliado paralíticos. Na verdade o que o levou ao desatino foi uma inexorável doença do sistema nervoso; esta sim, minou-lhe o organismo, incoordenou-lhe as mãos, embaraçou-lhe os olhos e tornou-o um ancião aos 59 anos. Continuou porém o engodo de fazê-lo gritar "Shazam". Parece ser de 1903 a primeira manifestação musical onde seu nome aparece e que foi cantada pelo emocionado autor, o cantor Eduardo das Neves, muito popular na época. A composição era bem intencionada, apesar de bombástica, e fez muito sucesso. Em 1907, João do Rio escreveu que o Rio tinha sete prazeres, citando o jogo do bicho, o maxixe, o cinematógrafo e a propaganda. "A Europa curvou-se ante o Brasil". Eis a laudativa letra da cançoneta "Homenagem a Santos Dumont", também conhecida como "A Europa curvou-se ante o Brasil". A Europa curvou-se ante o Brasil Terra adorada, és meu Brasil Salve estrela da América do Sul Terra adorada, etc, etc. O Brasil, cada vez mais poderoso, Terra adorada, etc, etc. A conquista do ar que aspirava. Terra adorada, etc, etc. Por isso o brasil tão majestoso, Terra adorada, etc, etc. Assinalou para sempre o século vinte, Em 1973 a Escola de Samba Imperador do Ipiranga desfilou com "Asas ao homem e glória ao Brasil" de Rosita de Almeida, onde relembrava Eduardo das Neves: Em 1873 no Brasil nasceu Santos Dumont a Escola homenageia Voltemos ao passado. Em 1928 foi homenageado com uma ode intitulada "Condor Brasileiro" do Dr. Sabino Campos e Caminha: Com a idéia no infinito Em 1938 foi a vez de Antenor Gargalhada compor o confuso "Asas para o Brasil": Viemos apresentar artes que alguém não viu De dois respeitáveis de nossa MPB, Ataulfo Alves e Wilson Batista, é a salada-exaltação "Terra Boa", onde sem-cerimoniosamente adulavam o "destemido" Getúlio Vargas: Terra de Santos Dumont, Carlos Gomes, Rui Barbosa, Em 1946, agora com Aldo Cabral, Ataulfo volta a citá-lo na marcha-hino "Santos Dumont". Mais uma vez versos precários e um insólito avião canoro: Alberto Santos Dumont, nome de exemplo e valor. Mais lantejoulas lançadas por Paulo e Tito Patrício: Mineiro pra lá de bom, "A 80 km por hora", cantada por Francisco, faz-lhe menção: Não vou chegar nas asas de Dumont Os caipiras (ou sertanejos) Juquinha e Silveira, exageraram na dose, transferindo-lhe o epíteto da Princesa Isabel : Perto de Belo Horizonte, Clécius Caldas e Armando Cavalcanti compuseram em 1958 "Bicho Carpinteiro", onde contavam de onde JK herdara sua atração pelas andanças aéreas: O Pai da Aviação era mineiro O samba-enredo de Darcy da Mangeira, Helio Turco e Jurandir, denominado "Modernos Bandeirantes", reserva um trecho para ele: Santos Dumont Aparece na apologia mineira de Luiz Wanderley e Elias Soares: Quem pensar que o mineiro é bobo Eis outro apanágio dos marqueteiros de Minas: "Mineiro é boa gente", de Tupi e Luiz de Castro: Dois grandes nomes da história Por fim o samba "O Pai da Aviação ", de João Colares, desfile de mesmice: No dia vinte e três de outubro Pelo que foi mostrado o leitor concluirá que nosso protagonista está por merecer homenagem mais inspiradas. Em outubro de 96, noventa anos terão decorrido de quando esse franzino introspectivo e denotado brasileiro, que almejava cativar a aristocracia francesa, apesar de sua origem interiorana, voou no 14 bis. Polêmico até ao morrer. Seu suicídio, enforcado com uma gravata, deu-se durante a Revolução Constitucionalista de 32. Getúlio foi acusado pelos paulistas de tê-lo levado à depressão ao usar o avião como arma de guerra. O governo federal divulgou a versão da "morte natural", que foi o que constou do atestado de óbito. Eu, particularmente, faço minhas as palavras de Gilberto Freire sobre ele: "Nunca um brasileiro foi uma tão completa glória universal, consagrado pelos sábios reis e artistas".
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©2005
Renato Vivacqua
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