As Musas da MPB

O brasileiro é vidrado em musas. Já se tornaram figurinhas fáceis. Quase toda a semana espouca uma na mídia. Temos as musas do verão, a musa da bossa-nova, a do Tropicalismo, musa do escândalo colorido, das Diretas Já, musa do impeachment. A passarela mitológica é imensa. E a musa da Música Popular Brasileira? qual a mulher que mais inspirou nossos poetas populares e que mais desfilou nas letras das canções brasileiras? Leila Diniz? Luz del Fuego? Elis? Marta Rocha? Greta Garbo? Marilyn Monroe tão comentada após trinta anos de sua morte? Nada disso. Todas foram lembradas em poucas e desenxabidas obras. Quem fascinou os compositores brasileiros foi uma francesinha que o cinema lançou em 1956: Brigitte Bardot. Tornou-se a deusa moderna dos prazeres sonhados, galvanizando os homens e provocando muxoxo das mulheres. Nós tupiniquins ficamos em estado de graça por algumas deferências connosco. Andou passando temporada em Búzios e namorou um jogador de basquete do Flamengo. Seu ar de menina desprotegida, o despojamento, a bundinha empinada enfeitiçou a todos como musa unânime. Na minha seara, a MPB, brilhou sem concorrentes. Em 1959 já era entronizada na vitrine do Carnaval carioca por Haroldo Lobo e Milton de Oliveira:

"Que bom que eu vou ser pai -
E o papai vai ser vovô -
Se for homem vou botar meu nome -
Se for mulher é Bigitte Bardot."

Nos festejos de 61 anos novamente é lembrada por Miguel Gustavo:

"Brigitte Bardot - Bardot -
Brigitte beijou, beijou -
Lá dentro do cinema todo mundo se afobou -
BB BB BB -
Porque será que todo mundo olha tanto para você."

Em 1963 lá estava:

"Onde Brigitte estiver eu vou -
Brigitte estiver em Roma, em Paris, Miami, Honolulu -
Quero Brigitte em Copacabana De biquini, boa pra chuchu."

As comparações eram inevitáveis, comomostram J.Jr e Oldemar Magalhães:

"De frente a cara da Lolô -
de costas o jeito de Bardô -
Faz da rua passarela -
Que pena não ser o dono dela."

Como carioca é capaz de dizer "disgusting" até para o Príncipe Charles, tinha que surgir alguém do contra. A dupla Vicente Longo e Waldemar Camargo:

"Receita para bom Carnaval -
É a morena, produto nacional -
Não é a Lolô nem a Bardot de Paris -
Você morena, que faz meu Carnaval feliz."

Em tempo: Lolô é Gina Lolobrígida, boazuda italiana, que também andou incendiando corações. Juca Chaves fez uma opção insólita:

"Adeus País Tropical -
Adeus Brigitte Bardot Caviar já me enjoou -
Vou viver no Piauí."

Amado Regis e Rangel Silva cantam o desagravo:

"você foi a mais graciosa -
Do strip-tease mundial (?) -
Vem brincar comigo - Brigitte, o nosso carnaval."

Em 1968 comparece ao "Casamento do Roberto", de Maísa, Elzo Augusto e Analídia:

"Roberto Carlos vai casar -
A Candinha me falou -
que o padrinho vai ser o Chacrinha -
E a madrinha Brigitte Bardot."

Luiz Wanderley e José Batista lançaram o "Rock da Brigitte", meio obcecado:

"Eu só gosto da Brigitte -
Eu só gosto da Brigitte Bardot -
Só vou ao cinema se a fita é francesa -
E a estrela é a Brigitte Bardot."

Dicró mostra-se anfitrião de personalidades:

"E muita gente famosa -
Visitou meu barracão -
Meu compadre Frank Sinatra -
Brigitte Bardot - E um tal de James Brown."

A colagem de Caetano lançou um obus no peito dos conservadores:

"Em caras de presidentes -
em grandes beijos de amor -
em dentes, pernas, bandeiras -
Bomba e Brigitte Bardot."

Tomzé chega a ser amargo em seu canto:

"A Brigitte Bardot está ficando velha -
Envelheceu antes de meus sonhos -
E a Brigitte Bardot agora está ficando triste -
E sozinha -
Será que algum rapaz de vinte anos vai telefonar -
Na hora exata em que ela estiver -
Com vontade de se suicidar?"

Mas nem está tão cinza. Paulo Ricardo e Luiz Schiavon ainda a desejam em 1986:

"não sei se é caça ou caçadora -
Se é Diana ou Afrodite -
Se é Brigitte -
Stephanie de Mônaco -
Aqui estou a seu inteiro dispor."

Realmente é muito difícil imaginar tal musa com tantos fiéis adoradores, hoje uma vetusta senhora com papadas, rugas e pneuzinhos nos flancos. Pouco importa, sua luz continua em sua cruzada mundial de preservação animal. Eterna Euterpe.

 

©2002 Renato Vivacqua