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| Pérolas da Música Popular Brasileira
Estão nossos letristas, portanto, em boa companhia. Feita a ressalva, vamos em frente: Tony Damito e Cidinha Rabello cometem este despautério geométrico e astronômico e pior querendo enfeitar:"O mundo gira em forma de Globo Quadrado/ Os palhaços noturnos gargalham/ Na dor do presente-passado". Xisto Bahia na modinha "Quem valem as flores", mostra uma boca insólita: "És grega perfeita/ Aspásia de linda plástica/ Pedindo beijo na Boca Elástica". A mesma boca deve ter inspirado Poeta, Rocha e Jones quando compuseram: "Na hora da despedida/ Eu vi dos seus lindos lábios/ Um Aceno de adeus". Raoni que se cuide. Elias Muniz não demora aparece no Fantástico com sua boca que transpira: "Abraço ardente para fazer boa refeição/ Bafos Suados e quentes/ O resto é com o coração". Gomes Filho em/ "Festa Iluminada quer um beijo mas ambicioso: "Quero beijar a alma do sol/ Sentir a vida em plena luz". No desfile osculatório surge a valsa "Flor Mulher": és a vida que eu vejo/ Cada vez mais florida/ quero beijar tua voz, por favor". Por falar em voz Olimpio Filho canta o óbvio: "Chega-te a mim embora comovida/ Para escutar minha voz sonora". Bezerra Jr. e Tonheca Dantas assumiram o besteirol: "Minha alma devaneia/ Como um astro salutar e atroz/ E a minha voz é um funeral de horror". Dupla canibalesca é Gilda Rolim e Elion que compôs "Mãe amor sublime": Mãe, ente de bondade/ E de tão grande sabor. "Penúria criativa foi a de Ary Barroso na marcha "Pica-pau": "Olha o pica-pau/ Picando o pau lá no jardim/ O meu coração é um pica-pau/ E não se cansa de bater e sofrer".Forçou a barra na comparação. Montenegro compara a mulher amada a uma rolinha. Até aí tudo bem, mas rolinha anêmica é de enrubescer: "Vem fazer-me feliz/ vem jurar ser minha/ óh pálida rolinha". Sem dúvida aterrador é o "Olhar de Vagalume" de Teles e Juliana: "Teu olhar de vagalume ilumina essa paixão/ Eu me acabo de ciúme, me alvoroça o coração". Bem, sempre pensei que a luzinha do vagalume ficava em outro lugar... Os grandes vultos receberam elogios peculiares dos compositores. Silas de Oliveira assim cantou Portinari: "Exaltamos a vida e obra de um artista/ O mestre da reflexão". Juquinha e Silveira exageraram na dose transferindo para Santos Dumont o epíteto da Princesa Isabel: "Perto de Belo Horizonte/ Nesta terra interessante/ Nasce Santos Dumont/ para a nossa Redenção". A lua nova tem sido uma casca de banana para os poetas populares. É justamente a fase em que por estar entre o sol e a terra, fica com a face escura, não sendo vista. Confundem-na com a lua cheia e de derramam como Gonzaguinha: "Sol vermelho é bonito de se ver/ lua nova no alto, que beleza". Ou Luiz Vieira: "Plantado na lua nova do penar/ O tempo vai passando". Aparece com Edu Lobo e Torquato Neto: "É lua nova/ É noite derradeira". Wilson Moreira e Neizinho, para eles existem fluídos nela: "Mal surgiu a lua nova/ Leonor se aluou", Roberto e Erasmo já desafinaram. Em "O Portão" descrevem um hilário cachorro que "sorri latindo" e em "Os seus botões" citam uma capa de chuva muito discreta que pratica o voyeurismo: "Chovia lá fora e a capa pendurada/ Assista tudo/ não dizia nada". Muitas vezes o compositor quer mostrar cultura e acaba se machucando. O samba "Edital" de Almir Guineto e Lucervi Ernesto é um exemplo. Tem uma profundidade que nem com basticafo se chega lá . "Apesar das peneiras tamparem o sol/ Vou cantar os escombros do arrebol/ apesar dos Colombos dos pedigrees/ vou cantar nas carreiras do povo e ouvir bis/ apesar dos sanhaços da lucidez/ vou cantar o que querem cantar vocês. "Totonho também andou filosofando em "Fogueira de não se apagar": Na lapidagem nobre do capricho/ Você sublime diamante meu/ Com as digitais do coração eu visto/ Essa paixão num grande apogeu". Essas duas só com bula. Liberdade criação é outro departamento e quem sabe, como fez Noel "O orvalho vem caindo", Jorge com "chove, chuva", Ary Barroso com "Coqueiro que dá coco". O bolero "Mera fantasia" de Adilson e Matos mais uma vez inova no sentido das palavras: "Tudo mera fantasia/ De um amor que não prontificou". Os compositores citados devem se sentir melindrados. Não escrevi o artigo levado por nenhum ranço elitista ou purista de linguagem . Eles são os mais criativos do mundo e a nossa música a mais rica. Portanto, nada de ressentimentos. Agora, se for para se criar algo gosto duvidoso é preferível cultivar o "talento do silêncio" que Carlyle elogiava.
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©2002 Renato Vivacqua |
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