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| Livro MPB Cantos & Encantos - Capítulo 4 INSPIRAÇÃO OU TRANSPIRAÇÃO, EIS A QUESTÃO Muitos são os que erguem a voz: A existência da inspiração, estro, engenho poético
ou qualquer outro nome que se lhe dê, dentro do processo de criação
de uma obra artística é, sem dúvida, um assunto passível
de interminável discussão. Os crédulos não
abrem mão de terem sido impregnados pela aura, enquanto os descrentes
encaram com desdém, classificando de pueris tais enlevos. Uma coisa
porém é certa, sejam prós ou contras, tem que haver
um outro elemento, catalizador imprescindível: o talento. Sem ele
não adianta ser inspirado ou diligente, a obra será sempre
pífia. Vejam como é polêmico. Manoel Bandeira diz:
Não faço poesia quando quero e sim quando ela, poesia
quer. Até para se atravessar uma rua precisa inspiração.
João Cabral de Mello Neto já acha que um poema pode ser
concebido racionalmente, resultante de uma elaboração mental.
Paul Valèry afirmava: O primeiro verso é ditado pelos
deuses. Stravinsky era enfático: a inspiração
vem do trabalho. Carlos Drummond de Andrade: Não sou
do tipo que senta e diz: vou criar uma poesia e conseguir. Para
ele todo ato resultava de um impulso e esse impulso era a inspiração.
Primeiro a emoção. A Música Popular não é
exceção. Nela há compositores famosos que repudiam
a inspiração, classificando-a até de babaquice e
outros que vivem a decantá-la. Desfilemos opositores e defensores. Quantas vezes sorrimos sem vontade Noel retirou-se da recepção, foi para o Café Ponto Chic e lançou na hora a composição no papel de embrulho. O clássico carnavalesco Até Amanhã nasceu no retorno de viagem ao Sul. O próprio Noel conta: Quando eu deixei o Sul, deixava uma mulher e levava saudades da ternura dessa mulher. Fui para um canto do navio, pedi uma bebida, acendi um cigarro e o resto não foi preciso esperar muito. O samba nasceu espontaneamente. Até amanhã se Deus quiser Sobre inspiração ele dizia: Eu só faço
samba quando estou inspirado. Não procuro forçar mesmo porque
não adianta. Quando a bossa falta nem um homem com poderes divinos
poderia fazer um samba. Prestem atenção na letra de
Naquele Tempo também nominado de Pra Esquecer.
Como narrativa é perfeita. Tem duas versões. Uma de Noel,
quem sabe para alimentar o mito (era muito inteligente, capitalizava isso)
onde diz que a música foi inspirada em um amigo que estava com
a cabeça virada por uma mulher. Naquele tempo Noel ainda tem várias outras obras de quase vidente, mas creio
que as citadas são bastante significativas. Grande narrador foi
também Lupiscínio Rodrigues, Quem há de dizer
é, na letra, ele até a última célula. Só
que desta vez não foi ele quem sofreu a dor de cotovelo, e sim
o seu parceiro Alcides Gonçalves. Ele conta como brotou. Quem há de dizer Em 1929, Ary Barroso, recém-chegado de Minas tentava sem êxito se enturmar no meio artístico muito fechado daquela época. Ninguém lhe dava a mínima e ele ficava zanzando com um rolinho de músicas debaixo do braço. Certo dia, desanimado com os percalços, vinha caminhando pelo centro do Rio quando ouviu uma zoada. Era uma briga de mulheres. Uma delas estava sendo hostilizada pela platéia e um garoto botava lenha na fogueira gritando: Dá nela, dá nela. Aquilo ficou passeando em sua mente e de repente se viu cantarolando: Essa mulher há muito tempo me provoca A música venceu o concurso carnavalesco daquele ano e consagrou-o. (3). Brasileirinho, um dos mais belos choros, nasceu fruto de uma brincadeira. Um menino, primo da esposa de Waldyr Azevedo, pediu-lhe que tocasse alguma coisa num cavaquinho estropiado de apenas uma corda. Para satisfazê-lo começou a tirar a melodia na hora. Algum tempo depois teve que substituir Dilermano Reis que estava com o dedo machucado. Pediram-lhe que tocasse um choro, o que não estava programado. Não teve dúvida em atacar a primeira coisa que lhe veio à cabeça, ou seja, o chorinho de uma corda só. Como só havia feito uma parte, o resto improvisou.
Vê, estão voltando as flores As flores de Cartola, as rosas, também surgiram encantadas. D.
Zica ganhou umas mudas e plantou-as. Numa manhã, passados alguns
dias, ao sair de casa encontrou, maravilhada, as rosas abertas. Gritou
Cartola e perguntou-lhe: Por que neascem tantas rosas assim, Cartola?
Queixo-me às rosas A maloca do Adoniram existiu mesmo. Ficava na Rua Augusta onde hoje é um cinema. Era um hotel abandonado. Passando por lá um dia viu começar a demolição e surgiu a música: Si sinhô num tá lembrado Cabeleira do Zezé primeiro sucesso de João Roberto Kelly, em 1964, até hoje ainda cantado no Carnaval, nasceu na mesa de um botequim em Vila Isabel. Foi inspirada num garçom chamado José que cultivava enormes madeixas. O estribilho saiu na hora e todos no bar começaram a acompanhá-lo: Olha a cabeleira do Zezé Fio Maravilha, conta Jorge Ben, teve suas primeiras estrofes brotando no Maracanã quando o jogador faz um gol maravilhoso, driblando vários adversárioos e entrando com bola e tudo, O compositor dizia na época: Gosto muito do Fio, é um praça cem por cento, um sujeito simples, um amigo de verdade. Se Pelé e Garrincha e tantos outros tiveram canções em suas homenagens, o Fio é tão bom profissional como eles. Ao fazer esse derramamento fraterno Jorge Ben nunca poderia prever que seria levado à justiça pelo jogador, reivindicando participação na vendagem de discos. Foi um gol de anjo Se todos fossem iguais a você foi a primeira composição da peça Orfeu do Carnaval que surgiu da recém formada dupla Tom-Vinícius. Segundo o Poetinha foi uma criação paralela: Enquanto Tom dedilhava o piano, ele escrevia a letra. Tudo espontâneo: Se todos fossem iguais a você Por causa de você, outra pérola da canção-amor. Nasceu de um flash genial de Dolores Jobim depõe: ela fez a letra com um lápis de sobrancelha, o instrumento que tinha à mão para não perder aquele ótimo momento de inspiração. Isso aconteceu numa sala da Rádio Nacional quando eu dedilhava a melodia para um grupo de colegas. O Vinícius já preparava uma letra e Dolores fez a dela em cima da perna, em cinco minutos. Depois escreveu na margem do papel: Vinícius, outra letra é covardia. A do Vinícius estava quase pronta mas ele abriu mão mantendo a feita por Dolores. Ah, você está vendo só Edu tocou a música, ele tinha só uma idéia que era uma coisa do mar, que eu também senti. Dia de luz 1961. Maysa. Sucesso estrondoso bossanovista. Ronaldo Bôscoli nos relata: Já tive inspiração de letras em diversos lugares, diversas situações: tomando banho, meditando ou emocionado por um fato, como foi o caso do barquinho. Menescal e eu pescávamos muito em Cabo Frio. Um dia quando voltamos do mar sentamos numa varanda e escrevemos O Barquinho de ponta a ponta: ele criou a melodia, e a letra saiu inteira. Recuemos no tempo. Periquitinho Verde de Nássara e Sá Roriz fez grande sucesso no carnaval de 1938. Dircinha Batista foi ao estúdio gravar certa música e o insólito é que na hora é que foram ver que não havia com que preencher o outro lado do disco. Nássara que por acaso estava por lá lembrou-se do Periquitinho que só tinha uma parte pronta. Fez a Segunda ali mesmo. Resultado, a música já acertada não teve nenhuma repercussão e o Periquitinho Verde foi um estouro: Meu periquitinho verde Braguinha um dos mais ecléticos compositores, é do time a favor: Nunca fiz força para fazer música. Todas saíram tão naturalmente que nem senti e quem sabe é esse o segredo do sucesso. Certa vez ele mais Lamertine Babo e Alberto Ribeiro saíram quebrados do Cassino da Urca. Um trio tão respeitável não se apertou e começaram ali mesmo, para espantar a decepção, a compor Cantoras do Rádio que Carmem Miranda cantou com a irmã Aurora e mais recentemente Gal com Betânia. Vale a pena recordar a letra, muito bem feita: Nós somos as cantoras do rádio Esqueci de dizer que estavam dentro de um lotação e que o motorista embevecido não cobrou a corrida. Pedro Caetano pelos idos de 1946 passava pelo morro de Mangueira e ficou ensimesmado com o silêncio, nenhum sinal de batucada. No caminho para Vila Isabel onde morava foi bolando um samba: Mangueira, onde é que estão os tamborins A música caiu no gosto popular mas não na dos diretores da Escola que torceram o nariz, reclamando que a música veiculava uma imagem negativa. Pedro Caetano para aliviar os pruridos fez o samba desagravo Mangueiras em férias: Quem foi que disse Tico-tico no fubá é uma das músicas brasileiras mais difundidas no mundo. Zequinha de Abreu criou-a durante um baile na sua cidade natal, Santa Rita do Passa Quatro. Quando começou a improvisar o chorinho ao piano todos saíram para o salão, balançando com o ritmo buliçoso. O compositor não conseguiu conter uma exclamação de alegria: Vejam, essa gente até parece tico-tico no farelo. De madrugada ao chegar em casa correu para o piano e passou a improvisação para a pauta com o título de Tico-tico no farelo. Só mais tarde ao compor a terceira parte é que deu o batismo consagrador: Tico-tico no fubá. Quem sabe, de Joel de Almeida e Carvalhinho foi um estouro no carnaval de 1956. Eis sua história: Joel havia gravado para aquele ano, pela Odeon, a marcha Camisolão na qual não fazia fé: quando vi a prova não gostei, não tinha balanço, não ia acontecer. Essa conclusão o colocava desolado naquela mesa de bar na Cinelânida. Aproxima-se o compositor Carlos Morais e indaga qual a bomba que tinha para os festejos. Joel para não dar o braço a torcer, fingiu concentração para ganhar tempo, mandou que ele sentasse e de repente veio-lhe à mente um jingle de Miguel Gustavo para a Toddy: Quem sabe, sabe/ conhece bem/ por isso Toddy/ prova o que tem. Batucou na mesa modificando a letra: Quem sabe, sabe Carvalhinho entrou na parceria apenas para divulgar a música, pois Joel pensou em Pedro Caetano, mas ficou tão eufórico com a inspiração salvadora que encheu a cara e não conseguiu encontrar a sua casa. Ary Barroso andou reivindicando que teria tido participação na feitura, depois do sucesso, mas não colou. Esmagando Rosas, a bela composição de Alcyr Pires Vermelho e David Nasser nasceu de um desafio de Francisco Alves e Alcyr, de que não conseguiria fazer uma música na hora. Ele estava precisando de um sucesso, se sentindo por baixo. David ficou queimado com ele por duvidar de mim. Sentamos e criamos. Ele gravou, a gravação não ficou bem feita mas fez muito sucesso. Tu tens Alcyr, logo que chegou ao Rio foi levado à casa de Lamartine Babo, já famoso. Lalá estava jantando e pediu que esperasse um pouco. Na sala, sobre o piano havia uma letra. Enquanto esperava começou a improvisar uma melodia. Lamartine veio correndo e ficou a escutá-lo. Medrou naquele momento Alma dos Violinos. Taí, que projetou Carmem Miranda, tem sua história. Joubert de Carvalho em fins de 1929 ia passando por uma casa de música quando o gerente, seu conhecido, chamou-o: venha ouvir o disco de uma cantora nova. Joubert achou a cantora interessante, tinha presença no disco e manifestou desejo de compor algo para ela. Eis que o gerente exclama: Taí ela chegando. Depois de conversar um pouco com Carmem já saiu com a composição na cabeça. No dia seguinte em sua casa começou a ensiná-lo e ao abordar um trecho explicando como gostaria que fosse a interpretação, ela interrompeu-o com muita graça: Não precisa me ensinar nada não, que na hora da bossa, eu entro com a boçalidade. O leitor recorde: Taí Maringá, do mesmo autor tem um enredo curioso. Surgiu de uma cavação de emprego. O mineiro Joubert em 1931 foi procurar o Ministro da Viação, José Américo de Almeida, para pleitear uma vaga de médico. O oficial de Gabinete era Rui Carneiro, futuro senador, que sugeriu que fizesse uma composição sobre a seca. Joubert perguntou onde José Américo havia nascido. Era em Areias, palavra que achou sem vibração. E você Rui, onde nasceu? Eu nasci em Pombal Ah, Pombal dá uma boa rima. E chofre fez trecho da canção: Como precisasse de outro nome de cidade perguntou a Rui onde a seca tinha sido mais impiedosa. Rui citou vários lugares, entre eles Ingá. Assim surgiu primeiramente Maria do Ingá e depois Maringá. Correu nos meios musicais que a letra era de Olegário Mariano mas David Nasser desmente. No entanto, Orlando Tejo, autor do delicioso Zé Limeira, o Poeta do Absurdo, garante que Rui Carneiro teve participação na letra e que todo mundo cantou a canção no seu enterro. A conclusão sobre o título deste artigo deixo por conta dos leitores. Eu vou encerrando a minha parte transcrevendo a letra do samba Poder da Criação, de João Nogueira e Paulo Sergio Pinheiro. O leitor é que faça a escolha entre a sudorese e o encantamento: Não, ninguém faz samba só porque
prefere (1) Na verdade a frase foi cunhada pelo gênio-monopolista americano Thomas Edison e dizia: O gênio é de 1% de inspiração e 99% de suor. (2) O interessante é que Francisco Alves foi procurado por Alcides no Rio, que o encontrou rodeado de mulheres e foi esnobado. A música começou a desapontar contada por outros e Chico então teve quase que implorar para gravá-la, pois o compositor cozinhou-o em banho-maria por meses antes de permitir a gravação. (3) David Nasser fala sobre seu talento: O Ary fazia música por inspiração. Não fabricava. Tinha a febre santa. Onde a inspiração baixasse, sacava de uma pauta musical e numa espécie de taquigrafia gravava no papel a melodia. Depois chegava em casa e ia direto ao piano. (4) A versão transcrita foi dada por um dos biógrafos de Adoniran. A do próprio compositor, bem menos prosaica é a seguinte: O meu parceiro para compor Saudosa Maloca foi meu cachorrinho. Toda manhã saio para passear com ele à procura de um poste amigo. O cachorro gostava de uma casa, que ia ser demolida e onde moravam marginais famosos, como Matogrosso, Joca, Corinthiano. Eles verdadeiramente existiram e já morreram. Ali tive a minha inspiração.
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©2002 Renato Vivacqua |
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