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Livro MPB Cantos & Encantos - Capítulo 5 PARCERIA & CONFRARIA
A mesma praça, o mesmo banco O autor, extremamente inteligente, Rei da Pilantragem, capaz de vender cavalo a cigano. Vocês devem se lembrar que ele tirou Luiz Gonzaga do ostracismo quando espalhou o boato de que os Beatles iriam gravar Asa Branca. Foi um rebuliço e o esquecido Lua voltou às manchetes. Foi ele também que deu o empurrão inicial em Roberto, Erasmo, Simonal e outros. Pegou o Meu Limão, meu Limoeiro que andava por aí e registrou-o em seu nome. Pois bem, voltemos à A Praça. Imperial bolou um merchandising quase perfeito para promover a música. Eu disse quase. Contratou um crioulinho mineiro para botar a boca no mundo se dizendo parceiro na música e que havia sido omitido. No princípio tudo bem, a celeuma capitalizou sucesso para a composição, mas com o passar do tempo o co-autor se imbuiu de que era realmente o criador da obra e Carlos passou maus pedaços até conseguir se livrar do chato, que o acompanhou por toda parte.
Ninguém me ama, ninguém me quer Lupiscínio Rodrigues foi extremamente pródigo em distribuir parcerias, mas uma se destacou: Felisberto Martins, diretor da gravadora Odeon nos anos 30. Nunca escreveu uma nota sequer para as composições de Lupe, mas seu nome, surge assinando sucessos como Braza e Se acaso você chegasse. No caso desta última, Lupiscínio foi vivo, pois morando no Rio Grande do Sul seria muito difícil se projetar no Rio sem um empurrãozinho, ainda mais por volta de 1938. Nada melhor que um parceiro, alto funcionário de uma gravadora, mesmo fictício. Só se conheceram dois anos depois do lançamento do disco. De qualquer maneira esse arreglo nos proporcionou a oportunidade de conhecermos um samba notável: Se acaso você chegasse O famoso samba de breque Acertei no Milhar é assinado por uma dupla respeitável: Wilson Batista e Geraldo Pereira: Etelvina (minha nega), acertei no milhar Até que enfim agora eu sou feliz Como no fato anterior os autores nem se conheciam. Moreira da Silva foi quem os apresentou e convenceu Wilson, o verdadeiro criador a incorporar Geraldo como parceiro. Moringueira conta: Em 1940, em São Paulo, o Wilson me mostrou o samba e eu gostei. Marquei para gravar mas falei com ele pra botar o Geraldo Pereira na parceria. Ele estava entrando no meio e era bom de trabalhar música. Apresentei o Geraldo ao Wilson na volta ao Rio e ficou tudo azul com bolinha cor-de-rosa. O Wilson era de fazer música mas sair para buscar o ouro não era com ele. Como trabalhador Geraldo entrou na parceria de Olha a cara dela, também de 1940, feita por Moreira da Silva. Um samba morno que nem estivador seria capaz de fazer brilhar. Olha a cara dela mamãe Em outra ocasião Geraldo retribuiu. Moreira voltou de Salvador em 1942, passou suas impressões para diversos compositores e ficou esperando o feedback. Moreira comenta: O crioulo era bom de chinfra e, não demorou, me deu o samba pronto, que eu gravei com meu nome e o dele. O samba é dele e as dicas são minhas. Nós somos parceiros. Ou não é? Vi tudo que encontrei por lá Aliás Moreira não se constrange em reconhecer: Já dei parceria em vários sambas para o cara que fez meus chapéus. Não pago mas com mais de uma música registrada por ano ele vai fazendo o nome e daqui a pouco se aposenta com uma pensão do INPS. Dorival Caymmi teve sua incursão urbana quando fez sambas-canções como Lembrança do Passado, Nesta rua Tão deserta, Tão só, Valerá a pena, Sábado em Copacabana, Não tem solução, as duas últimas de relativo sucesso. O que causou surpresa aos que acompanham a carreira do notável baiano, foi que em todas elas constava como parceiro o colunável Carlinhos Guinle, naquela época representante da Rolls-Royce no Brasil. Segundo Lucio rangel as más línguas destilaram a informação que Caymmi entrara com a letra e a música e Carlinhos com o uísque. Uma parceria bem regada como se vê. Outras vezes o compadrismo nasce à revelia de um dos autores mas como a música emplaca tudo se resolve sem amuos. Foi o que se deu como nelo samba Louco, de Henrique de Almeida e Wilson Batista. Henrique havia feito um estribilho que agradara muito ao cantar para os amigos: Louco, pelas ruas ele andava Ninguém sabe como chegou ao conhecimento de Wilson a primeira parte do samba. Ele fez a Segunda e Henrique só ficou sabendo quando Aracy de Almeida o procurou para comunicar que ia gravar o samba já completo e cantou para ele. Henrique confirmou o fato ao autor, completando: Como Wilson era meu amigo, resolvi deixar pra lá. Eis o implante de Wilson: Conselhos eu lhe dei Agora uma cessão duvidosa. No carnaval de 1936 Almirante fez sucesso com o samba de Mano Décio da Viola e Ernani Silva, Vem meu Amor, cuja inspiração surgiu após Mano Décio ter visto um filme que tinha como tema a Valsa dos Patinadores. A melodia saiu parecida: Vem meu amor Rachel e Suetônio Valença contam em Serra,
Serrinha, Serrano, o Império de Samba que Mano Décio
deu parceria a Bide do Estácio e a Braguinha. Quer dizer, pelos
excelentes pesquisadores foi uma doação. Só que Mano
Décio tem outra versão: Vendi o samba ao Bide por
50 mil réis e só recebi 30. A música foi gravada
em 1936 por Almirante, no nome de João de Barro. O engraçado
é que no disco consta a seguinte autoria: João de Barro,
Alcebíades Barcelos (Bide) e Delson Carlos. Do nome dos verdadeiros
autores nem sombra. Salve Antonio Castro Alves Autores: Comprido, Molequinho e Mano Décio. É o que consta nos anais do samba. Mas quem pôs a mão na massa mesmo foi o Comprido. Molequinho justifica; antes da escolha do enredo eu, o Fuleiro e o Aniceto e os outros mais, fizemos vários sambas para ver qual era o melhor. Mas aí lembramos que havia um samba do Comprido com o tema Castro Alves que levantava o terreiro e resolvemos botar esse samba mesmo. O samba era só do Comprido, mas como eu era o mentor de tudo a maneira mais fácil era ele me dar a parceria. Ele me deu de mão beijada e hoje o samba é gravado com o meu nome, o dele, e de Mano Décio, que teve oportunidade de apanhar carona. Gostei foi da justificativa: era mentor de tudo.
Joaquim José da Silva Xavier O samba teve um paraquedista, o Estanislau Silva, que não colocou nem uma vírgula nem uma nota, apenas entrou para promover, pois tinha penetração nas editoras e gravadoras, já que era conhecido, tendo alcançado grande êxito no carnaval de 1941 com o samba O Trem Atrasou. Foi um presentão. Marques Porto foi um revistógrafo famoso na década de 20-30 e que volta e meia aparece assinando músicas que faziam parte das revistas que produzira. Ary Barroso em início de carreria andou lhe cedendo parcerias. A música mais famosa em que se intrujou é Chuá-Chuá, em que aparece como co-autor junto com Ary Pavão e Pedro Sá Pereira. Lembram? E a fonte a cantar chuá, chuá Paulo Pimenta de Mello observa muito bem em seu imprescindível livro Modinhas & Serestas, Valsas e Canções: O revistógrafo Marques Porto abusava da amizade dos colaboradores de suas produções teatrais para incluir-se na autoria das peças que estes compunha. Chegou a figurar como co-autor de Linda Flor que todo mundo sabe ser obra exclusiva de Henrique Vogeler e Luis Peixoto. Mamãe eu Quero de Jararaca e Vicente
Paiva é, sem dúvida o nosso mais eterno sucesso carnavalesco
desde 1937. Sua origem é controvertida pelo próprio Jararaca,
que em 1977 declarava a Tárik de Souza que se inspirou num caco
que colocou no final de uma peça chamada Meu pai é
meu filho. O personagem Zé Bambo dizia confuso: Não
sei mais se o pai do meu filho é meu pai. O que fazer? E veio o
improviso: O jeito é você se abraçar com seu
pai e dizer: Mamãe eu quero mamar! Já em outra
entrevista ao Pasquim diz que se baseou em si mesmo por que fui
um menino mais mamão que apareceu. Sua esposa aumenta a confusão
esclarecendo que Jararaca dizia ter se inspirado no filho do casal Luiz
Geminiano. O filho confirma que desde pequeno ouvia a versão. Bem,
um pouco de mistério nunca fez mal a ninguém. Continuação
do Pasquim. Indagado quem era o autor declarou: O autor? Não
está nos jornais que sou eu? O Vicente eu convidei para ser o meu
sócio. Fiz a idéia musical sozinho. A composição
foi criada em dezembro de 1936 e ninguém se interessou em gravá-la.
Luiz Barbosa, o grande sambista torceu o nariz. Silvio Caldas também
não fez fé. Jararaca resolveu enfrentar a parada mas esbarrou
na sua própria gravadora, que não queria esvaziar sua imagem
de caipira. O empurrão veio de seu amigo Vicente Paiva, diretor
artístico da empresa, que bancou o disco, contrariando a cúpula.
Lançado sem maiores pretensões, acabou com mais de vinte
gravações no exterior. O empenho de Vicente foi recompensado
recebendo a parceria de bandeja. Ai Seu Mé, Ai Seu Mé O vatapá fazia referência ao vice de Peçanha que era baiano. Resultado: a composição caiu na boca do povo, mas Bernardes ganhou a eleição e ficou à espreita do Canalha. Como já falei, Freire não assumiria sua parte na obra, porém a vaidade falou mais alto e diante do êxito da marcha deu uma entrevista a um jornal identificando-se como autor dos versos. E o Rolinha mandou engaiolá-lo. Seu Arthur não era fácil, que o diga Sinhô, que teve que ficar escondido por uns tempos por alfinetá-lo num de seus sambas. A música sertaneja tem entre os seus clássicos o trágico Chico Mineiro de Tonico e Francisco Ribeiro. Tonico desde criança ouvia seu pai contar a lenda do Chico Mineiro. Por volta de 1944, no início de sua carreira, fez uma apresentação na Rádio Tupi e ao sair o porteiro que havia ouvido o programa perguntou-lhe se conhecia a história do Chico Mineiro, o que o espantou. Voltando-lhe à lembrança dos casos contados pelo pai e aproveitando a dica foi para casa e surgiu a canção que até hoje provoca emoção em suas apresentações, principalmente o trecho final: O Chico foi baleado Foi a primeira gravação da dupla Tonico e Tinoco e os lançou para o alto. Pois bem, o Francisco Ribeiro é nada mais nada menos que o porteiro que o fez recordar a lenda e a quem, grato, Tonico deu a parceria. A falta de memória cultural do brasileiro é lamentável. Enquanto nos outros países o artista veterano é tratado com a maior dignidade aqui é completamente relegado. Nos Estados Unidos Bing Crosby, Tony Benett, Frank Sinatra, Sammy Davis Jr. Ray Charles, Louis Armstrong, Nat King Cole, na França chavalier e Aznavour, no México Pedro Vargas e inúmeros outros podem ser citados como exemplo de prestígio perene. Aqui o ostracismo. Há dois anos fui assistir a um show de Silvio Caldas com 30 pessoas na platéia. Caso revoltante é o do gênio Pixinguinha, que não teve escolha, sendo obrigado a ceder parceria a Benedito Lacerda em vários choros famosos como: Ingênuo, 1 x 0, Sofres por que Queres, Proezas do Solon que gravaram em dupla. Canhoto depõe a respeito: A idéia de formar a dupla foi do Benedito Lacerda, por que o Pixinguinha já estava esquecido, ninguém mais falava nele. As músicas eram só do Pixinguinha. E o Benedito combinou tudo com ele: fazia o disco mas entrava nas parcerias. Muitas pessoas meteram o pau no Benedito, mas não tinham razão, ele foi franco. Eles iam tomar a casa do Pixinguinha. Aí o Benedito foi no Vitale, o editor, e arranjou o dinheiro para pagar a hipoteca da casa. Eu discordo do notável violonista. Sinceramente não acredito no despreendimento do Benedito, mas sim no desespero do Pixinguinha... Mas existem aqueles não tão francos, que participam realmente de uma parceria que não cogitam da inclusão de seu nome. Noel Rosa fez a Segunda parte do samba Diz qual foi o mal que fiz junto com Cartola e que Chico Alves gravou. Abriu mão da sua participação: Deixa pra lá, o samba é do Cartola. Roberto Martins deu sua contribuição a Aurora e nós queremos uma valsa e também não quis que seu nome constasse. Orestes Barbosa é outro exemplo. Certa vez Café Nice, reduto de compositores, mostrou a Ary Barroso os seguintes versos: Quem quebrou meu violão Ary gostou muito e se propôs a musicar e Orestes se comprometeu a terminar a letra. Reencontraram-se no dia seguinte e Ary trouxe a música pronta, tendo feito inclusive o restante da letra. Orestes sem revelar nada, guardou seus versos por mais que Ary insistisse não aceitou entrar na parceria. Foi grande sucesso de Francisco Alves, no carnaval de 1935. Paulo Roberto, além de médico foi produtor de vários programas famosos do rádio brasileiro como: Obrigado Doutor e Nada Além de Dois Minutos. Um dos grandes êxitos do carnaval de 1934, Se a Lua contasse, gravada por Aurora Miranda e João Petra de Barros, consta na história da MPB como sendo de autoria exclusiva de Custódio Mesquita: Se a lua contasse Só a primeira parte é de Custódio e as duas outras de Paulo Roberto que nunca quis entrar como co-autor argumentando que o mais inspirado da música era o estribilho. Esta revelação só veio a ser feita 35 anos depois! Fez entretanto questão de frisar que Custódio se empenhou de todo jeito para que assinasse também a obra. Se você Jurar de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves em qualquer lista dos dez maiores sambas de todos os tempos está lá, sempre bem votada: Se você jurar Bem, Francisco Alves entrou por injunções comerciais, já que a dupla era contratada exclusivamente dele. Nilton e Ismael eram muito amigos e como o primeiro morreu moço, o samba ficou mais associado ao nome de Ismael. Um daqueles casos de ofuscamento. Foi gravado em dupla por Mário Reis e Francisco Alves em 1931. Mário não deixou dúvidas de que foi uma cessão amigável quando declara: Conheci o Nilton muito bem. Sou capaz de dizer quais são as músicas dele ou de Ismael Silva. Se você jurar, por exemplo, é mais do Nilton. Ary Vasconcelos reforça: Se você jurar, é exclusivamente de Nilton. Isso é apenas um registro histórico, que não diminui Ismael em nada.
A mulher do padeiro Como Kid Pepe e Germano Augusto eram notórios valentões, J. Piedade deve ter cedido a parceria na marra. Aracy de Almeida conta que Pepe a obrigou, certa vez, com uma faca na barriga a gravar sua batucada O que tem Iaiá. Piedade morreu tuberculoso, na penúria, e seu último samba é contundente: Azeitona na minha empada ninguém bota
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©2002 Renato Vivacqua |
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