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| Livro MPB Cantos & Encantos - Capítulo 6 A POÉTICA DOS QUADRINHOS
E os heróis surgiram e foram idolatrados. Algumas historietas eram verdadeiros primores na arte do desenho, como Príncipe Valente, Tarzã, Flash Gordon. Brigas teriam que surgir diante de um negócio que se tornava rendodíssimo, como por exemplo Superhomem versus Capitão Marvel. Esta última criação não pôde ser publicada nos Estados Unidos por ter sido considerada um pastiche do Homem de Kripton. Sua importância extrapolava fronteiras e incomodava. Goering, poderoso ministro de Hitler, bradava: O superhomem é judeu! Mussolini fazia coro: Flash Gordon é um propagandista americano. Uma das senhas americanas durante a Segunda Grande Guerra era: quem é a esposa de Pafúncio? Quando Ferdinando casou com a Risoleta foi capa do Times. Virou peça na Broadway e filme de sucesso. O Dia da Maria Cebola, que muitos donos de casas noturnas no Brasil promovem para atrair mais público, onde as mulheres abordam os homens, originou-se dessa historieta, pois, nesse dia em Brejo Seco, os solteiros eram implacavelmente perseguido. Seu autor All Capp foi sugerido para o prêmio Nobel por John Steinbeck: é o maior escritor da América. Popeye tem estátua no Texas, também virou filme com atores humanos e pasmem, personagem de um dos mais nacionalistas de nossos escritores: Monteiro Lobato. Sim, andou passeando pelo Pica-Pau Amarelo. O Apollo 8 e seu módulo lunar foram denominados respectivamente Charlie Brown e Snoopy. Felinni foi um apaixonado pelos quadrinhos, chegando a declarar: seria o mais feliz dos homens se pudesse filmar Flash Gordon e Mandrake. Por falar em Mandrake, Lee Falk, seu escritor, veio ao Brasil há alguns anos e ficou surpreso com o número de repórteres que foram entrevistá-lo e também aborrecido com o teor de algumas perguntas, como, por exemplo, se o Lothar não seria algo mais que um guarda-costas, em outras palavras, se não havia um caso entro os dois personagens. O cinema, que no início não investira na nova arte a não ser em indigentes mas degustadíssimas fitas em série abriu campo às super-produções. A TV também contribuiu para aumentar a popularidade lançando desenhos aos borbotões. Era portanto previsível que a Música Popular se deixasse sensibilizar por todo esse mundo de fantasia e começasse a cantar os heróis. Este artigo é para mostrar um pouco desse encanto. Antes um pequeno passeio pela história dos quadrinhos no Brasil. Nossos pais e avós leram o Tico-Tico surgido em 1905 e que teve seus dias de glória. As coisas ficaram mornas até o aparecimento do Suplemento Juvenil em 1934. Aí começou a mania. Nasceram o Globo Juvenil, Mirim, O Guri, O Gibi. Este último acabou virando sinônimo de revista infantil. Passou também a significar algo em evidência. Dizer nunca vi seu nome no Gibi era reduzir a pessoa ao mais ínfimo dos mortais. Sergio Augusto o definiu bem: O Gibi transformou-se num espantoso culto de imagens, refletindo o que fomos nos últimos 50 anos e o que somos hoje, ou até o que seremos no futuro. Ei-lo marcando presença em Cinema Mudo de Carlinhos Vergueiro: Cada disco na vitrola Mas a potencialidade brasileira começou a vir à tona com Pererê, de Ziraldo, em 1959 e explodindo com Maurício de Souza e sua Turma da Mônica a partir de 1962. Chico Anísio e Arnoud Rodrigues em 1969 lançaram a composição História em Quadrinhos. Como curiosidade eis um trecho: Você passou quadrinho1 Tarzan nasceu através de Edgar Rice Burroughs, em livro, no ano de 1914. Em 1918 já estava no cinema com Elmo Lincoln. Em 1929 já era sucesso em quadrinhos e o cinema voltou a requisitá-lo com o inesquecível johnny Weissmuller. Noel Rosa e Vadico em 1936 compuseram o engraçado Tarzan, o filho do alfaiate. Quem foi que disse que eu era forte? Os Originais do Samba cantam de bonsucesso, J. Carioca e Bidi, a divertida Aniversário do Tarzan: Quando entrei na mata Volta a ser lembrado por Claudio Tolomei, Joào Bosco e Aldyr Blanc, coitado, já sofrendo os males da civilização. Olha meu bem o que restou Claudio Cartier e Paulo Feital recordam-no nostálgicos: Quisera. No MPB SHELL 81 Julio barroso apresentou Perdidos na Selva uma salada tropicalista (com orangotango e tudo!): Perdidos na selva O marinheiro Popeye é um dos mais antigos heróis, tenho sido criado em 1929 por Elzie Segar. Pulou para o desenho animado e mostrando seu vigor virou filme com personagens humanos. Foi responsável por milhares de engulhos infantis provocados pelas conscienciosas mães que empurravam pela goela abaixo dos guris a massaroca verde de espinafre. Paulo Massadas retratou isso bem: Ai, ai, mamãe me chama de faquir Geléia de Marimbondo de João Roberto Kely é um concorrente: Parece até o espinafre do Popái Flash Gordon, pioneiro no Brasil, chega na interessante letra de Kid Supérfluo de Arrigo Barnabé: Há muitas naves pelo espaço Sergio Lopes e Paulo Coelho parecem que nunca tiveram
infância e desmitifica-os Essa é a era E o desfile continua com Os Super-Heróis de Toquinho e Mutinho: Nós somos os Super-Heróis Você escolheu errado seu Super-herói do quarteto Aguillar, Go, Thomas Brun e Dekinha: Mas o que mais me dói Há alguns anos os heróis mais populares eram Luluzinha e Bolinha e o Pato Donald. Isso antes da avalanche de desenhos televisivos. Os leitores devem ter percebido a ausênciade Walt Disney nesta pesquisa. Não foi omissão minha, apenas critério em selecionar os que tiveram berço nos quadrinhos. As criações de Disney nasceram no cinema e depois é que saltaram para as revistas. Roberto e Erasmo fizeram a descompromissada Festa do bolinha. Eu ontem fui à festa Outra Festa do Bolinha de Jorge Washington: Vai, vai, vai Luluzinha Boi da cara branca de Helio Matheus, em retorno à infância: Já faz alguns anos que você nasceu Os Golden Boys lembraram o Fantasminha Camarada: Gasparzinho, fantasminha camarada E a fantasia corre solta. Vejam Solte o meu nariz de Fábio Gaz e Vadão: Vou pra Nigéria O público é mesmo uma incógnita. O Homem Morcego andava com iboope baixíssimo quando por volta de 1989 ressurge impoluto com a batmania. Surgem os filmes. Surge o batmóvel e o batcóptero para desespero da algibeira dos pais. Sua cidade Gothan City foi título de uma canção de Jards Macalé e Capinam no IV Festival da Canção. A música captava a imagem sombria do lugar mas o público não percebeu e quase escalpeou o avançado Macalé. Por falar em cidade, Benito de Paula revolveu ser cicerone de Charlie Brown: Ê meu amigo Charlie Aí chega a anárquica Rita Lee com Arrombou a Festa com o visível intento de introduzir algo no ventilador: Ai, ai, meu Deus Um dos mais populares sem dúvida é Mandrake. Foi bastante
adjetivado no Brasil. O sujeito meio mandrake é o espertalhão
ou gay por fazer desaparecer, ou aquele capaz de resolver
as situações mais enroladas. Surgiu em 1934 e sempre foi
fiel aos quadrinhos. Arnaud Rodrigues lembra-se dele: Virou uma arruaça Outro non-sense, agora de Eduardo Dusek: Cadilirock: Ele não sabia de nada, no entanto Guilherme Lamounier usa bem a imagem em Eu gosto de fazer o que ela gosta: Eu gosto de fazer o que ela gosta O primitivo Brucutú que sem dúvida inspirou os Flinstones não podia estar ausente. Otolino Lopes, Adauto Michilis e Waldyr Ferreira lançaram-no no carnaval: No tempo do Brucutu Roberto Carlos na época pueril da Jovem Guarda gravou-o numa versão de Rossini Pinto: Olha o Brucutu, Brucutu Os americanos como sempre previram o filão e em 1966 o maestro Ray Martin lançou um LP chamado The Great Themes from Comic Strips. Pelo tamanho a composição de Theotônio e Alberto Pavão Família Buscapé é um almanaque: Bem pra lá do fim do mundo O Superhomem surgiu em 1938 e um ano depois já aterrisava entre nós. Clark Kent se chamava então Edu. O mais política dos heróis, lutou contra nazistas, fascistas e japoneses durante a Segunda Grande Guerra. John Kennedy apareceu numa de suas histórias dando conselho aos jovens. Cristofer Reever, seu intérprete na tela, esteve no Chile em defesa de artistas chilenos ameaçados e declarou: nem o Superhomem dá jeito na situação aqui. Em 1973 os Fevers gravam em versão de Rossini Pinto Superman onde vira conselheiro sentimental: Você faz o que quer Caetano coloca-o em seu rol na crítica contra
os desvarios da supervalorização: Superbacana, Superbacana Gil o vê romanticamente: Quem sabe o Superhomem venha Um ano depois surge mordendo-lhe os calcanhares, tonitroante, o Capitão Marvel. Ainda bem que brigaram nos tribunais e a partir de 1945 este último foi proibido de ser editado nos Estados Unidos. Mas voou para cá e Antonio Barreto, Pedro Paraguasú e Euclides Machado não tiveram cerimônia em lhe solicitar os préstimos: Ao chegar em casa Se ele incomodou o Superhomem, não ficou impune, seus desenhistas criaram-lhe um adversário capaz de infernizar sua vida, um cri-cri genial: Dr. Silvana, lembrado por Gil em O Sonho Acabou. A fase das heroínas liberadas começou com a sensual Barbarella, em 1962. No carnaval de 71 estava na passarela: Eu sou a Barbarella sensacional Reaparece em Retiros Espirituais, bonita canção de Gil, onde ele tece as palavras com muita competência: Nos meus retiros espirituais Lone Ranger (Carnavalesco Solitário), uma das historietas mais populares nos Estados Unidos, viajou para cá onde também conquistou a garotada. Só que, sabe-se lá baseado em que (talvez a máscara, única coisa em comum), batizaram-no Zorro. O herói não nasceu em quadrinhos, mas num programa radiofônico em 1932 e caiu em tal apreço do público que seis anos depois saltou com igual desenvoltura para os jornais. Nada tem a ver com o homônimo mexicano que combatia os invasores espanhóis na velha Califórnia colonial, e atazanava a vida do Sargento Garcia, que projetou-se pelo cinema baseado no romance A maldição de Capistrano de Johnston Mcculley. Já o justiceiro dos quadrinhos com seu cavalo Silver e o fiel escudeiro, o índio Tonto, aventurava-se pelo oeste americano. Zé Ramalho em O Monte Olímpia requisita o cavalo para a escalada. Afinal o corcel era anunciado capaz de ser rápido como a luz: Vou subir o Monte Olímpia 3 x 4 de um Homem, de Turkley, traça um futuro nada otimista: Então você abaixa num terreiro de macumba Fecho as páginas da revista sonora que folheamos juntos, num passeio cúltico, creio dos mais enternecedores.
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©2002 Renato Vivacqua |
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