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| Livro MPB Cantos & Encantos - Capítulo 7 QUERO CHORAR, TENHO LÁGRIMAS
E ela disse ao campônio a brincar Os últimos versos são de arrepiar e capazes de estarrecer qualquer cirurgião cardio-vascular: Mas em meio da estrada caiu Muitos leitores poderão estranhar a ausência de O Ébrio, do mesmo Vicente. Eu explico: é que o drama do infortunado beberrão pareceria um conto de fadas diante do rol de dramalhões que farei desfilar aqui. Pelo mesmo motivo os saudosistas não encontrarão Brinquedo do Destino, A Pequenina Cruz do teu Rosário, Lamentos e outras. Mas o na vida real pacato e abstêmio Vicente não se sentirá desprestigiado com a omissão. Mostro seu tango Matei, um primor de vicissitudes. Conta o drama de um bom samaritano que recolheu uma mulher doente, faminta e quase morta, cuidou dela e acabaram por se amar. Um dia a ingrata se arrancou com o outro e ele ficou desesperado: dormia nas sargetas, tal qual um cão sem dono. O epílogo não é mole: Farto de sofrer fui procurar um amigo Romance da Ceguinha de René Bittencourt narra o reencontro de um sujeito com a mulher com quem tivera um romance. Quando a abandonou ela ficou cega! Tempos depois, oh irônico destino, tornaram a ficar frente a frente e o mais inverossímil é que ele não a reconheceu. Só depois que a infeliz desfiou sua desdita ligou os fatos. (Seria deficiente visual também?): Fitando bem aquele meigo rosto Pelo menos houve o happy-end. Outra azarada surge na composição de Uriel Lourival, Pasmem, ficou caolha por ciúmes de Jesus! Jesus quando te viu Coração de Luto, do gaúcho Teixeirinha causou comoção e gozação. Os conterrâneos do autor cantaram-no com lágrimas nos olhos enquanto nos outros Estados era batizados de Churrasquinho de Mãe. Dizem ter sido baseado em fato real: O maior golpe do mundo Seria a mãe paralítica para se deixar queimar doloridamente? Denso mistério. Falando em paralisia mostro esta pérola que é Aleijadinha. De Francisco Lacerda e Bob Jr.: Quando ainda era criança Apareceu um namorado que custou a descobrir que a amada era manca, pois ela namorava na janela. Levou-a então a um médico mas deu zebra: Mas o esforço foi em vão Milagre do Retrato, de Calandro e Sulino elege mais um deficiente físico. Um garoto perde o avô querido e perde também os movimentos (seria histérico o pobrezinho?), mas ainda teve mais sorte que a aleijadinha operada: Mas quando ele fez dois Como o menino chamava pelo avô o pai deu-lhe o retrato, com o qual batia papo: Volte de novo pra mim E para encerrar, sabem o que aconteceu? Miracolo! O garoto saiu andando e o retrato chorou! Pelo quarto ele andou Como até agora só deu estropiado vamos a mais uma: Calvário letra de Márcio Rossi que trata de um tuberculoso que tem como último desejo beijar a mãe mas receia transmitir-lhe a doença: Sobre uma cama carcomida, parecia Hão de convir que meio termo de cortar o coração é um achado. Amado Batista em Amor Batista em Amor Perfeito vai assistir o parto da esposa e só podia dar desgraça: No hospital, na sala de cirurgia Flor do Mal, primeira gravação de Vicente Celestino é um festival de xingação. Inicialmente o autor pede até com bons modos para ser esquecido, mas de repente se esquenta e baixa o nível: Ah, hipócrito, fingido coração O alvo dessas ofensas todas não é fruto da imaginação. Trata-se da atriz Arminda Santos, e o letrista, o poeta Domingos Correia se apaixonou por ela, não foi correspondido e no seu desvario pôs fim à vida. Mas antes desabafou... Teve seguidores em seus impropérios zoológicos. Silveira e Silveirinha não ficam atrás com A víbora.: Tu és a cobra venenosa e maldosa Perdão Emília, um clássico da modinha conta a visita de um ex amante ao túmulo da companheira que se suicidara: Perdão Emília se roubei-te a vida O reconhecimento do mau-caratismo não adiantou muito, o fantasma de Emília saiu do túmulo e desancou-lhe: Monstro tirano pra que vens agora Parece que sua metralhadora verbal é poderosa, pelo que dizem os últimos versos: E um baque surdo se ouviu na terra Será possível ser enamorado do descanso eterno?. Tem gosto pra tudo. Em O Castigo da Cruz, de José Fortuna e Mairoporã, aparece outro fantasma. Um boiadeiro herege tinha a mania de arrancar cruzes da estrada e também não podia ver uma vela acesa. Certa noite o profano se estrepou quando quis derrubar uma cruz: Quando tentou arrancar, no braço da cruz pegou Agora vem o melhor: o vulto deu-lhe um carão paternal: O vulto falou: meu filho não pratiques isso mais O boiadeiro, é lógico caiu duro e quando voltou a si virou o maior carola: Para a alma do seu pai ele fez uma oração O trânsito louco não podia ser um tema excluído. Comecemos pela Carreta Maldita cujo título mais apropriado seria Carreta Desalmado, de Nelson Blanc em Maury Câmara: Não reparem se estou chorando Só faltava ir tomar satisfação com a carreta. Outra desgraça motorizada é Boletim Escolar, de Vicente Dias e Rubens Avelino: o menino chegava da escola trazendo o boletim, vê o pai do outro lado da rua, atravessando afoito e... Mas o destino cruel Não sei como conseguem ser tão trágicos. Continuemos
com o morticínio. Triste Ocorrência de Jack e
Abel. O rapaz saiu do interior para ser polícia na cidade grande
mas nunca mais deu notícia à família. Passaram-se
os anos, o pai enviuvou e resolveu procurar o filho sumido. Eis o que
aconteceu: E na cidade em que o filho morava Ora faça-me o favor, o cara desaparece no mundo, não reconhece o próprio pai estatelado no chão e ainda se banha em prantos? Atropelamento insólito se dá em História de um boiadeiro. O rapazola deixa a casa paterna e volta anos depois comandando uma boiada. De repente dá-se um estouro e os animais pisoteiam uma pessoa que caminhava. Já adivinharam quem era? Quando a boiada passou Outra fatalidade se desencadeia em Lágrimas de Pai. Um pobre lixeiro do interior mandou durante 26 anos dinheiro para o filho estudar na capital e ser advogado (ou o cara é meio tapado ou explorou o pai). No dia da formatura compareceu todo empolgado e veja o que aconteceu: O doutor vendo seu pai O velho saiu em prantos e virou mendigo: Mendigando viu findar os dias seus Mas não acabou, o velho panaca antes de findar ainda falou: num sorriso, encobrindo a própria dor. Deixo a vida satisfeito por que pude O Vicente foi outro que saiu de sua cidadezinha para aventurar-se na capital, só que virou bandidão mas com resquícios de amor filial, pois mandava dinheiro para o pai. Um dia chega às mãos do velho que era analfabeto, um jornal com a foto do filho na primeira página. Levou para um amigo ler e só então ficou sabendo que peça criara: O velhinho envergonhado sumiu povoação A guerra excerce um fascínio muito grande nos compositores. Dois bons valores da música caipira, Tonico e Capitão Balduíno cantam Vingança de Soldado. Este sobreviveu à luta mas no seu retorno à Pátria levou chumbo de outra forma. Tava o doutor delegado O herói contava com alguém esperando-o na volta, só que parece não ter se lembrado de avisar: Na guerra tive vitória Outra composição agora de Praense e Sebastião Araújo dá continuidade ao tema com a mesma falta de originalidade. O pracinha pensa que a noiva o espera mas ela casa com outro. Quando volta sai à procura dela e vai indagar ao próprio marido se a conhece, mostrando-lhe o retrato O homem fica epumando: O homem vendo o retrato, louco, enciumado ficou Pensaram que acabou a saga militar? Eu vos apresento Sêlo de Sangue, drama epistolar do combatente sádico que na carta à amada mandou que ela tirasse o selo e guardasse como lembrança: Tirou o selo e por baixo Fiquei impressionado com o tamanho do sêlo. O Pessoal parece fissurado pela guerra. São composições relativamente recentes, quando o conflito já acabou há 47 anos! Cruel Destino de Carreirinho é sem dúvida shakespeariano. Helena, uma linda moça, filha de um rico doutor, é apaixonada por um moço pobre mas muito trabalhador. A família prometeu-a em casamento a um francês abonado e a jovem inconformou-se: Recolheu-se em seu quarto O rapaz pobre tomou uma decisão: Ele foi ao cemitério Agora duas histórinhas de cadeia: Encerrado de Chrisóstomo e Dalvan mostram que desgraça pouca é bobagem. O filho encarcerado é visitado pela mãe e o que acontece? Mãezinha por que está em silêncio? A Presidiária de Sebastião F. Silva e Arthur Moreira é um exemplo comovedor de mau-caratismo. O marido flagrou a esposa com o amigo e suicidou-se. Ela foi condenada e o amigo urso ficou caladinho: Foi julgada por assassinato Em A Menina da Viola Zé Coqueiro dá asas à imaginação e fala sobre a Menina, virtuosa da viola que desperta a inveja do dono da fazenda cuja filha não tinha nenhum talento: A ira do milionário Mulher da vida tem o arrependido subtítulo de não faça jamais como eu fiz. O protagonista que só pode ser pirado, se apaixonou por uma mundana e chegando um dia ao bordel invadiu o quarto onde ela estava e: Me vi completamente louco Como não pretendo ser superado pela tevê em se tratando de relação incestuosa apresento-lhes a novela Armadilha do Destino, onde um tal Ronaldo enviuvou, deu a filha para outra família criar e caiu no mundo enchendo a cara durante vinte anos. Até que um dia: Mas pelo destino cruel, sem piedade Ronaldo perguntou à Flor do Salão (presumo que estavam num cabaré) sobre se passado chegamos ao clímax: Ronaldo enxergando a realidade Viram que metáfora fantástica: Punhal de tristeza. E o colapso duplo? Vamos agora dar uma guinada. O Carnaval pressupõe alegria, catar-se, descontração, mas mesmo assim alguns espíritos de porco aparecem para colocar ranço na festa maior. Coração de Bruto, de Paris Delfino e Philadelpho lançado no carnaval de 62 dá uma alfinetada no Teixeirinha: Que história triste seu Teixeirinha contou Panela de Pressão de José Astholfi é um exemplo de humor negro dos melhores: Estourou ô, ô, ô Isso é lá tema pra carnaval? Menino Inteligente outro muito pouco carnavalesco: Menino inteligente Mulher de Palhaço põe por terra o frio conceito de que o Show deve continuar. Carnaval de 1965. Foi uma discussão banal Garanto que após serem triturados por este espetáculo de morbidez musical os leitores vão passar três meses no mínimo só querendo escutar cantigas de roda.
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©2002 Renato Vivacqua |
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