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Livro MPB História de Sua Gente - Capítulo 10 RELAÇÕES DESAFINADAS Conversávamos eu e um amigo, saudosista crônico, sobre o relacionamento, às vezes nada amistoso, entre figuras de nossa Música Popular, quando ele comentou enfático que antigamente a turma era mais cavalheiresca. Engano, no antigamente dele, como hoje, espoucaram muitos ressentimentos, houve muito nariz torcido, muito dedo em riste, acusações de plágio, pixações, xingações e safanões. Contemos alguns casos. José barbosa da Silva, o mulato janota, cognominado Sinhô, autor de Jura Jura E do delicioso Gosto que me Enrosco Não se deve amar Lançou em 1927 um samba que fez enorme sucesso: Ora vejam só. Heitor dos Prazeres, outro inspirado compositor, procurou Sinhô dizendo que o samba era seu. Muito tranqüilo Sinhô bateu-lhe no ombro e saiu maravilhosamente pela tangente: Ora, Heitor, samba é igual a passarinho, está no ar, é de quem pegar primeiro. Muito invocado Heitor vingou-se com duas composições: Olha ele, cuidado Chora mais do que eu Sete anos antes Sinhô já provocara querela com Pixinguinha e família. Lançara com êxito o Pé de Anjo O Pé de Anjo Acontece que a música era uma gozação aos bens servidos pés de China, irmão de Pixinguinha. A resposta não demorou com Quem são eles Um sou eu Um dos maiores sucessos carnavalescos de todos os tempos O teu cabelo não nega foi também pivô de uma briga danada. A marchinha se chamava Mulata e pertencia aos Irmãos Valença, de Pernambuco. Lamartine Babo cariocarizou-a e o Brasil tomou conhecimento da composição. Os pernambucanos, com razão, espernearam e só se acalmaram depois de por a mão numa nota firme. Em 1931, Ary Barroso musicou um poema de J. Carlos chamado Na Grota Funda Na grota funda Lamartine ouviu, empolgou-se, modificou a letra e surgiu No Rancho Fundo No rancho fundo Todo mundo cantou a Segunda versão e J. Carlos
morreu ressentido pensando que Ary havia repudiado sua poesia. Ary Barroso criou o samba-exaltação com
Aquarela do Brasil. Quando o samba pegou cartaz David Nasser e Alcyr Pires
Vermelho resolveram aproveitar a maré e compuseram o Canta Brasil
que também se tornou muito conhecido. Ary trocou de mal com Alcyr
para o resto da vida, tachando-o de oportunista. No século do progresso Um ano depois a impunidade acabou. Kid lançou como seu um samba que foi muito bem aceito implorar Implorar, só a Deus O autor era Sedá, um valente da época e o surrupiador teve que passar algum tempo escondido para não ser retalhado.
Cai, cai Chico Alves ouviu dizer que a música era boa e
procurou-o para gravá-la. Roberto entretanto, preferia para interpretá-la
a dupla Joel e Gaúcho. Quando a música explodiu no carnaval
Chico percebeu que tinha sido logrado e nunca mais perdoou Roberto. Certa vez contratou Noel Rosa para produzir-lhe sambas. O atrito foi inevitável, pois muito organizado, queria enquadrar Noel. Este achou que era implicância e protestou no samba Vitória Antes da vitória Haroldo Lobo e David Nasser começaram a compor uma música carnavalesca que era assim; Chegou Por esquecimento o verso ficou engavetado e um ano depois Haroldo sem consultar David mostrou-o a Nássara. Este gostou, deu uma mexidinha e surgiu o Alá-lá-ô David ficou muito chateado mas não tinha mais
jeito. Ninguém me ama Na qual Fernando entrou como parceiro fantasma, enquanto Maria fazia o mesmo numa composição de Lobo chamada Preconceito. Haviam combinado esse compadrismo e ninguém deveria ficar sabendo, mas Maria deu uma veneta e rompeu o acordo contando para todo mundo, pois das duas só Ninguém me ama fez sucesso. Estão vendo que nem sempre as coisa foram serenas. Os pacifistas, entretanto, podem ficar tranqüilos. Nesse tipo de guerra entre moribundos e feridos sempre se salvam todos.
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©2002 Renato Vivacqua |
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