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Livro MPB História de Sua Gente - Capítulo 13 PANCADARIA SONORA As mulheres nem sempre tem sido louvadas pelos nossos
compositores. Existem os adeptos da surra terapêutica e do carinho
paleolítico. O Carnaval, na sua irreverência é o maior
manancial de temas onde são receitadas as sacudidelas como corretivo
ou como insólita manifestação de ternura. Mulher danada Sinhô, o Rei do Samba, mulato talentoso e pernóstico, lança em 1924 o samba Já, Já, que classificou como samba democrático: Se essa mulher fosse minha Se esse massacre for atitude democrática... Em outro samba, Minha Paixão, ela banco o morcego, primeiro sopra: Não quero teima nem discussão Em 1929, Ary Barroso, quitanista de Direito, muito mais propenso à música que às leis ganha o concurso carnavalesco que lhe permite sair das aperturas e casar: Esta mulher há muito tempo me provoca No mesmo ano Chico Alves e Ismael Silva lançam Amor de Malandro, onde defendiam o cachação gratificante: Amor é o de malandro, meu bem Heitor dos Prazeres concorda em Mulher de Malandro: Mulher de malandro sabe ser Oswaldo Nunes reforça a tese masoquista: Mulher de malandro, rapaz Em 1932, Lamartine Babo surge com o samba Só dando com uma pedra nela: Mulher de setenta anos Por coincidência, no mesmo ano Noel Rsa aparece com o lançamento de um petardo: Mulher Indigesta: Mas que mulher indigesta, indigesta Em outra composição o Poeta da Vila ameaça com novo corretivo: Toma cuidado que te ripo Em Nunca... Jamais mostra que é durão: Qualquer dia eu perco a paciência Ary Barroso volta ao carnaval de 1938 com Boneca de Pixe: Não me fraseia ó muié canaia Carmem Miranda em Mulato de Qualidade, de André Filho, mostra que há gosto para tudo: Vivo feliz no meu canto sossegada A mesma Carmem, o mesmo André, mais pancada: Tu ficas em casa e eu vou pra rua trabalhar A Pequena Notável parece que gosta do negócio. Em 1930 grava mais uma: Mulher, eu vô te dá pancada Até o comedido Joubert de Carvalho se anima com o conformismo da cantora e dá para que ela grave Esta vida é muito engraçada: Eu vou te dar pancada O Women Libs deve ter tido engulhos ao ouvir essas duas que se seguem: Sem me bater eu te amo Na primeira vez que Portela desceu o morro foi cantando um samba truculento de Alvarenga: Carinho eu tenho demais O bloco Bafo da Onça em 1964 saiu cantando um samba meio indelicado: É o pau, é o pau que a nega levou E o pau continua cantando: Eu não bati para machucar Madalena João Roberto Kelly, em 1971 usou a psicanálise do arrocho: Menina sai da fossa Rossini Pinto, no Carnaval de 1972, invalida o ditado Pancada de amor não dói: Meu amor me bateu Fora dos festejos momescos encontramos, quem diria, o romântico Vicente Celestino botando as manguinhas de fora: Oh Fru Fru, Flor da Noite Seu Reverendo também faz propaganda à pancadaria: Seu reverendo sou um homem de paz Tom e Dito já começam xingando no título: Cretina: Eu lhe ataco e lhe acato A paixão futebolística de um vascaíno não é mole: Quando você gritou Mengo Ary do Cavaco fez um samba de troglodita: Eu sou o bicho homem. Se andares direitinho Caco Velho cantou a canalização de sua escurinha: "Minha nega na janela está tirando linha Lupscínio Rodrigues não poderia faltar. Ei-lo num corpo a corpo em Amigo Ciúme: " Quem nos vê brigando Aldyr Blanc e João Bosco ainda conseguem se repremir: Bem que eu queria Beto Sacala não consegue a dissuasão: Ela tem o micróbio do samba no sangue Aí estão algumas das obras de afirmação machista. Elas nunca desaparecerão, pois o tema parece fascinante, menos para as vítimas, é claro.
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©2002 Renato Vivacqua |
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