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Livro MPB História de Sua Gente - Capítulo 14 MÚSICA POPULAR A DÍVIDA COM O ÍNDIO A perspectiva da emancipação do índio está causando polêmicas, enquanto ele continua em um tubo de ensaio, arriscado a ser submetido a experiências sociais macabras. Para a grande maioria dos brasileiros a imagem do nosso selvagem é enganadoramente cor-de-rosa, já que o imaginam levando um vidão, sem horário, sem patrão, sem lenço e sem documento. Os compositores populares, em destaque os carnavalescos, concorreram muito para que esse enfoque falso se popularizasse. As composições retratam-no como um protagonista pitoresco: sagaz, sempre passando a perna nos outros, conquistador arrebatado e irresistível. Podemos dizer que o boom do indígena como tema começõu em 1961, quando dois excelentes compositores carnavalescos, Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, driblaram a censura, lançando a maliciosa marcha Índio quer apito aproveitando uma anedota em voga: Ê, ê, ê Parece que o apito o decepcionou, como se vê em Índio agora quer casar, de 1971: Índio não quer mais apito Como reagiriam Peri e Ubirajara diante das insinuações contidas em Mais um Guerreiro, de Clóvis de Lima e Lord Chivas, para o Carnaval de 1973: Índio não quer mais apito O machismo é uma constante. Sou Tupiniquim, lançado em 1968 é um exemplo: Eu sou tupiniquim No Carnaval de 1971 Carmen Costa cantava Índio quer mulher, que aliás parece ser outra fixação dos nossos silvícolas: Índio está com sede Até na tribo quando o negócio é saia, há quebra de hierarquia: Índio vai pedir A indigência das composições é a regra. Jair Silva e Pedro Saraiva conseguiram criar a insólita mistura que batizaram de Cacique na Onda, para os festejos de 1969: Ê, ê, ê Celso Mendes, no Carnaval de 1966, já prenunciava a emancipação: Ô, ô, ô Telegrama do Cacique é outra mostra de deslumbramento: O cacique passou telegrama O Índio Cara de Pau, de Vicente Amar e Roberto Muniz parece que não se iludiu com o mundo dos caraíbas e volta às origens: Índio cara de pau A imagem de boa-vida é sempre lembrada, como em Índio do Xingu, dos talentosos Klécius Caldas e Rutinaldo: Eu vou, eu vou A fantasia dos autores atingiu o clímax no Carnaval de 66, desencadeando uma onde canibalismo: Chegou a tribo de índio valente Ainda bem que Jorge Duarte e Arthur Montenegro tranqüilizam o país em Índio Moderno: Não tenha medo Como vemos, a nossa Música Popular tem posto um biombo colorido à frente do problema do índio. Á exceção dos criadores carnavalescos, com sua abordagem quase caricata, totalmente distanciada da realidade, os compositores não se sensibilizam com sua luta pela auto-preservação. Algumas tímidas tentativas surgiram, como Martinho da Vila Tribo dos Carajás, onde diz: E o índio cantou Djavan também se manifesta: Terra de índio O conjunto de vanguarda Língua de Trapo não tem nada de alienado: Xingú Chorando pela Natureza de João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro é um libelo: As matas sumindo de nossa bandeira Jorge Ben, considerado um talentoso descompromissado pára para pensar e surge contundente: Todo dia era dia de índio Se a inconsciência persistir e a maioria continuar silenciosa, quando resolverem cantá-lo terão que compor um réquiem.
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©2002 Renato Vivacqua |
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