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Livro MPB História de Sua Gente - Capítulo 16 AS MUSAS SÃO PEÇAS DE MUSEU? Este artigo pretende contar a história de algumas
inspiradoras, às quais a nossa Música Popular deve páginas
memoráveis. A idéia surgiu ao tomar conhecimento de uma
declaração do compositor Carlos Lyra que considerei radical:
Esse negócio de ter musa é um machismo sem vergonha.
Vejamos quem tem razão. Eu gostei tanto A tal Mercedes devia ser mesmo uma parada, pois inspirou o também queixoso Brasa: Você parece uma brasa Iná, a noiva que o perdeu para a boemia foi a musa do belíssimo Nervos de Aço, ao ser vista ao lado do marido: Você sabe o que é ter um amor, meu
senhor Quem conhece a obra satírica de Assis Valente, cheia de gíria, buliçosa, sabe que debaixo desse verniz se escondia um homem obstinado pela morte que procurou por três vezes, até conseguir destruir-se. Um dos seus amores foi Boneca. Linda mulata 17 anos, artista de cabaré, para quem criou Boneca de Pano: Boneca de pano À nova geração o nome de Jorge Faraj não diz nada. Foi ele, porém, um dos mais dotados letristas do nosso cancioneiro. Uma só mulher teve significado em sua vida e foi um amor inatingível. Era um boêmio irrecuperável e atravessou-lhe o caminho justamente uma jovem pacata, professorinha de subúrbio. Percebeu que não haveria conciliação entre tão diversos mundos. Renunciou explodindo em versos inspiradíssimos. Professora é o retrato do seu desalento: Eu a vejo todo dia Catullo da Paixão Cearense encontrou numa festa sua musa. A jovem, gente bem, filha de Senador, tinha o gracioso apelido de Coleira, por usar uma gargantilha de veludo negro. Catullo enfeitiçado, cortejou-a naquela mesma noite com a modinha Rasga o coração: Rasga o coração O impossível parece acontecer. Catullo começa a pensar em casamento, mas o pai, concedendo-lhe a fama de farrista, indefere-lhe as pretensões. Parte inconformado deixando para Coleira uma das suas mais belas canções: Ontem ao luar Depois de sua morte, entre papéis amarelecidos, foram encontrados versos dedicados à mocinha, que nunca chegou a escutá-los: Talvez não saibas que foste Noel Rosa foi um homem de muitos amores e muitas canções de amor. Nunca, entretanto, fez concessão ao pieguismo. Clara foi seu amor de rapzote e anos depois ao reencontrá-la numa festa a moça fingiu não conhecê-lo. Ali mesmo nasceu o samba Prazer em Conhecê-lo: Ainda me lembro que ficamos de repente Em 1931, volta de uma excursão ao sul trazendo um samba cheio de saudade e uma gaúcha no coração: Até amanhã, se Deus quiser A operária Josefina fez nascer uma das suas mais belas composições: Quando o apito da fábrica de tecidos 1934 é o ano em que surge Ceci, sua fonte maior, que lhe inspira várias obras. Dama do Cabaré descreve o primeiro encontro: Foi num cabaré da Lapa O início do romance é contado no antológico Último Desejo: Nosso amor que eu não esqueço Em Pra que Mentir desabafa seus ciúmes: Pra que mentir Um grande sucesso de Carnaval, A Mulata é a Tal, de Antonio Almeida, teve também sua musa de carne e osso. Foi feita para a Rainha das Mulatas, Maria Aparecida, hoje prima-donna da ópera de Paris: Branca é branca Sinhô, o mulato almofadinha, autor de Jura, Gosto que me enrosco, não se deu bem com a namorada branca como atesta este samba: Ó minha branca Com Noel Rosa, Custódio Mesquita teve como mulher-estro uma Ceci, que lhe inspirou Mulher: Não sei que intensa magia Prelúdio pra ninar gente grande foi feita a bordo de um avião por Luiz Vieira ainda impregnado por uma baiana muito meiga, carinhosa, com quem teve emoções travessas e delicadas. Quando estou nos braços teus As musas não são fruto de uma época como muitos podem pensar, já que compositores mais recentes também foram envolvidos. Tom e Vinícius fizeram nascer na mesa de um bar de Copacabana a Garota de Ipanema empolgados com a menina Heloísa que desfilava encantadora por ali. O irreverente Juca Chaves, apologista da mulher e do cabotinismo, o que lhe tem rendido uma boa nota, investiu nas suas carraspanas sentimentais, produzindo belas modinhas. A sua Ana Maria não é imaginária, existiu e causou-lhe dissabores. Menina foi a primeira música para ela: Menina, ouça o que eu digo Musa infiel foi outra, que ele rotula de pleonasmo: Musa infiel O clímax foi belíssimo Por quem sonha Ana Maria: Na alameda da poesia Jorge Ben já louvou sua Tereza em várias composições, culminado com a explosão de suas maiores paixões, quando diz: Eu sou Flamengo Tragi-comédias surgem tendo como protagonistas as musas. A que vamos narrar aconteceu com Lamartine Babo. Em 1935 ele começou a receber na Rádio Nacional cartas apaixonadas, vindas de Dores da Boa Esperança, em Minas. A fã se chamava Nair e durante um ano correspondência cada vez mais ardente foi se estabelecendo entre eles. Fascinado compôs para ela uma das nossas mais belas canções: Serra da Boa Esperança: Serra da Boa Esperança Surgiu então a grande oportunidade de conhecê-la quando recebeu convite para ir à cidade prestigiar a estréia de um conjunto musical. Era a chance de ouro para procurar a amada que na derradeira carta terminara tudo. Estava inconformado e indo lá conseguiria uma satisfação. Chegou aclamado e foi recebido pelo dentista Carlos Neto(4), fundador do grupo orquestral e que lhe fizera o convite. E nada da Nair aparecer. Pergunta daqui, pergunta dali, todo mundo desconversando. O dentista, já constrangido acabou por revelar o trote genial. Nair existia sim, mas era sua sobrinha de sete anos e quem escrevia as cartas era ele. Lamartine não se pertubnou, levou na gozação, ficou por lá mais vinte dias na mordomia e mais tarde o dentista com remorso ainda lhe deu a parceria de Vaca Amarela. Grande amor foi também a chapeleira Alda, que fez nascer em 1932 a Marchinha do Amor: Com a letra A Apesar de muito feio Lamartine era um cortejador incurável e infiel. Acabou por magoar Alda que casou com outro. Sentiu muito, colocando sua dor em: Mais uma valsa, mais uma saudade O engenho poético de Caetano Veloso criou Trem das Cores para a bela Sonia Braga: Teu cabelo preto Em Rapte-me Camaleoa o astro tem o destino da atriz Regina Casé, que é estimulada num brilhante jogo de palavras: Rapte-me camaleoa Gilberto Gil continua impregnado pela ex-mulher Sandra. Canta isso sofrido em Deixar Você: O fim do amor, oh não Lido o atigo dá para se perceber que as musas continuam aí, deusas envolventes, e que devem ser salvas da imolação apregoada pelo compositores computadorizados. 1 Gasparino Damata, na crônica A Lapa está virando saudade, in Antologia da Lapa, mostra-nos Boneca vista por Laura, que foi também uma das mulheres mais formosas do antigo reduto boêmio: Boneca era linda. Sou mulher e mulher não gosta de achar outra bonita, mas a Boneca foi a pequena mais bacana que apareceu na Lapa. Como Boneca nenhuma Damata complementa o perfil da jovem: Boneca tinha 17 anos quando começou a aparecer nos cabarés. Os homens endoideciam por ela, disputando sua companhia. Boneca brilhava. Mulata clara, filha de português, tinha cabelos louros, corpo bem feito, os olhos castanhos claros, a pele boa. Boneca levou alguns ao suicídio e inspirou várias músicas aos compositores. Um deles, Assis Valente, compôs uma valsa com muita coisa dela, da sua beleza diabólica. Foi perpetuada na voz de Francisco Alves. Muita gente chegou a pensar que aquela boneca era só de vitrine. 2 Pungente é outra música que fez para a professorinha: Telefone do Amor: Para ver se te esquecia 3 Um fato nebuloso na vida de Catullo, segundo um dos seus biógrafos, Carlos Maul, foi a verdadeira razão da desistência. Em 1885 era Catullo professor dos filhos do Conselheiro Silveira Martins e morava num quarto dos fundos. Certa noite chegou meio de cara cheia e, ao entrar em seu aposento, foi surpreendido ao encontrar uma mulher semi-despida, que começou a gritar histericamente, dizendo-se violada. Logo surgiram desconhecidos que arrastaram o estarrecido Catullo para a Delegacia, onde foi autuado. Ingenuamente, o poeta imaginou-se realmente casado e, pela versão de Maul, foi esse o motivo real que levou a sacrificar o amor de Coleira. Só muitos anos mais tarde é que descobriu ter sido vítima de uma farsa que nunca conseguiu esclarecer. 4 João Antero de Carvalho, in Torcedores de Ontem e de Hoje diz que Carlos Neto era professor de Latim! David Nasser na biografia que esvreveu de Carmem Miranda relata que o protagonista foi Chico Alves e que este pediu a Lamartine que compusesse algo para cortejar a fã desconhecida. Continua David, narrando na voz de Francisco Alves, que foi marcado um encontro depois de muita insistência deste, num local ermo. Quando se aproximou uma gargalhada masculina denunciou o lôgro. É uma versão fantasiosa como se vê. Carlos Neto acabou vindo para o Rio, foi colega de trabalho de Nestor de Holanda e esclareceu-lhe a verdade dos fato.
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©2002 Renato Vivacqua |
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