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Livro MPB História de Sua Gente - Capítulo 3 O CANTO DE AMOR DO POETA Vila Isabel, 4 de maio de 1937. 21:30 hs. Dedos trêmulos
tamborilam na mesinha de cabeceira, talvez um último samba. Repetindo
a história, um grande romântico caía vencido com o
pulmão baqueado. Um gênio franzino, feio, sofrido, carregando
uma deformação facial como um estigma e que se tornaria
o maior mito da nossa música popular: Noel Rosa. Foi um homem de
muitos amores e pouco amado. Inteligente, tinha consciência da fragilidade
da retribuição aos seus desvelos. Nunca, entretanto, fez
concessões ao pieguismo. Jamais foi um choramingas, derramando
cascatas lacrimais ou ameaçando morrer pela perjura que o abandonara.
Lamentava-se sem pedir condescendência. Percorreu uma trilha sentimental
acidentada, com muito mais tropeços que vitórias. Suas musas
realmente existiram e foram eternizadas em sua poesia. Com amargor ou
ternura cantou-as sempre. Contemos seus cantos de amor. Ainda me lembro que ficamos de repente Vizinha de Clara morava Josefina, muito bonita. Noel começou a paquera e o primeiro galanteio musical veio com o retrato que ganhou, Seu riso de criança. Seu riso de criança Em 1931, já se tornando conhecido, excursiona ao Sul com Francisco Alves e Mário Reis. Na volta traz um samba belíssimo, cheio de saudades. Havia deixado um amor por lá: Até amanhã, se Deus quiser Entretanto, não esquecera Josefina. Dois anos depois, estando os tempos difíceis, a moça se empregou numa fábrica de botões, mas nunca revelou ao admirador. Noel, mal-informado, convenceu-se de que a jovem trabalhava numa fábrica de tecidos e surgiu o famoso Três Apitos: Você que atende ao apito Uma dançarina, Julinha, foi a paixão seguinte. Pode-se aquilatar o enlevo do compositor refletido nas músicas que lhe dedicou. O lindo Feitio de Oração foi uma delas: Quem acha Ela morava na Penha e Noel acabou por transferi-la para o centro da cidade. Era traído com freqüência, mas o samba que brotou de sua mágoa nada tem de dramalhão: Vai para casa depressa O arrependimento de tê-la trazido mais para perto das tentações extravasa em dois sambas: Meu barracão e Pra Esquecer. Faz hoje quase um ano Neurótica, certa vez após uma briga, quebrou o violão do poeta e tentou o suicídio. Motivou outra bela obra: Ao ver o carro cinzento As ambulâncias eram cinzentas naquela época. Em 1934, surge Ceci, modelo da Escola de Belas Artes, que lhe inspira oito sambas. O antológico Último Desejo: Nosso amor que eu não esqueço Dama do cabaré, descrevendo o primeiro encontro. Foi num cabaré da Lapa Veio a seguir o amargo Pra que Mentir, onde Noel desabafa seus ciúmes, segundo Ceci infundados, pois era amigo do famoso malandro Meia-Noite e ninguém teria coragem de cortejá-la. Pra que mentir A paixão tempestuosa trouxe brigas cotidianas e com elas novas músicas: O maior castigo que te dou Em 1935, a notícia de que Noel estava doente em Minas, levou Ceci, incógnita, à sua casa buscar notícias, pois já estava casada. Ao voltar, soube da misteriosa visita e criou o Só pode ser você: E pelas informações que recebi Quem ri melhor procura sublimar suas desconfianças: Pobre de quem já sofreu neste mundo Outro desabafo em Quantos beijos: Quantos beijos Noel nunca resgatou-lhe apoio financeiro, mas um dia ela pediu uma nota firme e ele se enfezou: Você me pediu cem mil réis Ceci supõe que Pastorinhas tenha sido dedicada a ela quando ainda tinha o título de Linda Pequena. Assistiu à feiura da letra e Noel havia dito que a homenagearia com uma marchinha. Eis algumas palavras suas, pouco divulgadas, sobre o Poeta da Vila: Foi uma pena morrer tão cedo. Mas a verdade é que ele se deixou morrer. Parecia procurar a morte. Tinha amigos, tinha tudo. Só não fazia esforço para viver. Uma história amena: um samba chamado Estamos Esperando durante muito tempo encucou os pesquisadores, pois seus versos faziam pensar que alguma cabrocha o enfeitiçara, já que o compositor era um dos poucos lá de baixo que tinham salvo-conduto para chegar aos redutos de samba nos morros. Da tua voz tirei a melodia Através de Cartola foi desfeito o mistério não houve musa no caso, a inspiração foi muito pouco romântica: a falta de dinheiro. Fez esse samba num botequim na hora, pedido de Chico Alves, e vendeu-o por cem mil réis. Noel é tão atual que é inconcebível que tenha morrido há mais de 40 anos. Um homem que amou para cantar e cantou para viver. (6). Sua última composição é uma lição de vida. Quem é que já sofreu mais do que eu
2 O maestro e amigo Homero Dornellas era quem passava para a pauta as músicas do compositor. Foi ele quem chamou a atenção de Noel para a semelhança entre os três primeiros compassos do Com Que Roupa com a melodia do hino Nacional e deu uma mexida na hora, diante do estupefato Poeta da Vila. Morador há 50 anos em Vila Isabel, pesquisou e afirma que a fábrica na realidade apitava nove vezes ao dia. 3 Na verdade trata-se de um samba recordação, já que o encontro se deu em 1934 e ele foi composto em 1936. 4 Fico em dúvida se Noel não tinha suas razões. Em um artigo recente recordando a velha Lapa, Mário Lago fala no Cabaré Royal Pigalle, onde trabalhava a Cecy, que às vezes me acarinhava as noites tendo o pensamento em Noel. 5 Cecy não se diz musa desse samba, apesar de Almirante afirmar que foi endereçado a ela. 6 Segundo seu primo e biógrafo Jacy Pacheco, Noel teve um amor oculto que inspirou-lhe uma obra-prima o samba Silêncio de um minuto, que tem versos maravilhosos: Luto preto é vaidade
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©2002 Renato Vivacqua |
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