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Livro MPB História de Sua Gente - Capítulo 6 NA MÚSICA POPULAR, QUEM DIRIA, TAMBÉM SE COPIA Conseqüência da lei do menor
esforço, das traições do incosciente, da falta de
talento, da má fé, tem surgido no mundo da música
poopular um grande número de obras decalcadas. A maioria não
passa de vergonhoso pastiche. Algumas, passíveis de discussão,
nascem por conta das coincidências musicais, outras foram tão
bem adaptadas que nos fazem esquecer a apropriação indébita. Nunca A bela canção Mulher nova,
bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor está causando
dor de cabeça nos autores. Nega do cabelo duro Cuja melodia é calcada na de Sinhõ e que Nestor de Holanda já ouvira fazendo parte de um ponto de terreiro. Fica difícil saber quem surrupiou de quem. Na folia de 1920 Sinhô deu um banho com a marcha Pé de Anjo onde implicava com os bens servidos pés de China, irmão de Pixinguinha. Ó pé de anjo, pé de
anjo A melodia era a da valsa francesa Genny, da qual fez um arranjo gostosíssimo. No Carnaval de 1939 Orlando Silva se consagrou com a marcha de Benedito Lacerda e Humberto Porto A Jardineira. Os autores se inspiraram num sucesso de 1905, de provável autoria de Candinho das Laranjeiras, cujo bloco que fundara saiu às ruas cantando: Ó Jardineira por que estás
tão triste Em 1906 saem mais dois grupos carnavalescos vidrados na tal camélia. Um dava o seguinte recado: Bela Pastora E outro: Minhas belas pastoras É de se notar que a turma meio sádica gostou mesmo foi da desdita da camélia, cujos versos foram aproveitados por todos. Freire Jr. fez em 1921 marchinha satirizando Arthur Bernardes, então candidato à Presidência, que tinha o apelido de carneiro: Ai seu Mé, Ai seu Mé Para seu azar Bernardes se elegeu e mandou trancafiá-lo. Seu desgosto foi ter sido encanado por um plágio, já que copiou a melodia do fox Salomé, misturando-a com a da modinha Mimosa do ator Leopoldo Fróis. Nem o consolo de ter sido preso por algo original tive, queixou-se anos depois. Mais longe ainda foram buscar inspiração Otolindo Lopes e Adauto Michilis quando em 1971 lançaram Ó Filomena, que em 1914 com o mesmo título ferroava o Marechal Hermes que fora batizado pelo povo de Dudu. Comparemos, a de 1915: Ó Filomena A de 1971: Ó Filomena Como a Filomena de 1915 já fora adaptada de uma canção italiana deu-se uma reação em cadeia de efeito retardado. Os mesmos autores usaram numa marcha em 1971 uma frase tirada de um samba de Lamartine Babo composto em 1932: Só dando com uma pedra nela. Benedito Lacerda e Herivelto Martins aproveitaram uma parte do Gosto que Enrosco de Sinhô na marcha Nem no sétimo dia: E ainda hoje o mundo vive em revolução Uma antiga canção portuguesa foi mexida por Vicente Paiva e Paulo Barbosa e virou a marcha Salada Portuguesa grande sucesso em 1935: A minha caninha verde A batucada Nega Maluca, badaladíssima nos festejos de 1950: Tava jogando sinuca Como denunciou Nestor de Holanda, teve sua Segunda parte xerocada de uma embolada de Jararaca e Ratinho chamada Vamos no Mato. 1956 foi um Carnaval dos mais indigentes. Antônio Almeida apareceu com o samba Arranca a máscara da face no qual copiou sem cerimônia parta da letra e música do clássico Pierrot de Pascoal Carlos Magno e Joubert de Carvalho: Antes do dia raiar O mesmo Antônio Almeida em parceria com Cristovão de Alencar, no Carnaval de 1936, já era réu confesso em Não há ó gente ó não: Não há ó gente ó
não O cancioneiro latino-americano foi grande manancial para os carbonos carnavalescos. Um plágio afrontoso foi em 1942 quando Rubens Campos e Henricão aproveitaram inteirinha a melodia da canção mexicana Cielito Lindo, um êxito estrondoso na voz de Carmem Costa: Ai, ai, ai, ai, está chegando a hora. Em 1943 nova apelação pois a mesma cantora gravava do mesmo Henricão Carmelito, nada mais que uma adaptação do tango Caminito de Juan de Diós Felisberto. A cantora parece predestinada na escolha de seus pares. Em época mais recente foi ligada ao compositor Mirabeau, que volta e meia era acusado de repasses musicais. O grande sucesso Cachaça (Você pensa que cachaça é água...) provocou comentários pela sua semelhança com Pierrô Apaixonado de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres. Jarro da Saudade, que também emplacou em 1957 Iaiá cadê o vaso Tem o mesmo refrão melódico de Tarde na Serra de Lamartine. A rumba El Cubanchero no maravilho cadinho carnavalesco transformou-se em Jacarépaguá: É hoje que eu vou me acabar O bolero Canción del Alma sob o condão de Zé da Zilda transfigurou-se no Sacarrolha: As águas vão rolar Wilson Batista e Nássara usaram a La Paloma como modelo para a marcha Pombinha Branca. Linda Mexicana de David Nasser, Edgar Freitas e Djalma Esteves é fac-smile da canção Farolito de Augustin Lara. Até nos jingles teve gente metendo a mão. Miguel Gustavo criou uma propaganda para o Toddy que logo se popularizou: Quem sabe, sabe Carvalhinho e Joel Almeida não perderam tempo e a transformaram no Quem sabe, sabe, muito cantado no Carnaval de 1956. Um anúncio da Brastel, na Brastel tudo a preço de banana virou a Marcha da Banana. Algumas adaptações, temos que reconhecer, foram bastante felizes. A de Nássara e Frazão em 1941 foi uma delas, com Nós Queremos uma Valsa, que aproveitou trechos da Valsa dos Patinadores. Essa valsa já havia patrocinado sucesso anterior, o samba Vem meu amor de Mano Décio da Viola e João de Barro. Mano Décio conta como foi: Meu primeiro samba foi uma versão (?). Vi um filme que tinha como música a Valsa dos Patinadores. Saí dali com a melodia na cabeça: Vem meu amor, me consolar. És a primeira mulher. Que não sabe amar. Vendi o samba ao Bide por 50 mil réis e só recebi trinta. A música foi gravada em 1936 por Almirante, no nome de João de barro. Em 1943 Nássara e Frazão repetiram a dose usando compassos do Danúbio Azul na marcha O Danúbio Azulou. As óperas sempre foram muito simpáticas aos adeptos da cola musical. O hino do Rio de Janeiro, a marcha Cidade Maravilhosa, foi colada por André Filho de um trecho do 3° ato da La Bohème de Puccini, que por sua vez já vinha sendo usado como prefixo de um jornal cinematográfico americano. Os Palhaços, de Leoncavallo, inspirou Lamartine Babo no sucesso de 1934, Ridi Palhaço. Foi um empréstimo bem sucedido. Madame Butterfly, em 1964, ressurge na marcha Coitada da Madame Butterfly. No ano seguinte é a vez da Traviata, com A Marcha da Traviata. A profusão de cabeludos e barbudos inspirou, em 1970, O Barbeiro que se vire, surrupiando trecho da ópera famosa. Não só óperas estrangeiras foram visadas: O Guarany teve várias abordagens clandestinas. Posso citar a de Príncipe Pretinho, em 1937, com Cecy e Pery, e outra de Peterpã, que esmurra o peito na sua mea culpa: Eu fiz esta canção As operetas também foram distinguidas com a preferência. Maria Rosa, que Chico Alves gravou em 1935 com grande repercussão, teve uma parte tirada da opereta Rose Marie, êxito no cinema com Nelson eddy e Jeanette Mac Donald. Carlos Cruz e Carlos Morais, com caradurismo, atacaram a Viúva Alegre no Carnaval de 1971. Aliás, este último é um especialista em despedaçar operas, sendo autor também da Marcha da Traviata, O barbeiro que se vire e Coitada da Madame Butterfly. As canções italianas foram outra fonte. Roberto Martins e Ary Monteiro transmutaram a Dove stá Zazá em Cadê Zazá, estouro em 1967. Ruy Rey, em 1956, copia a melodia de Oi Mari na sua Ai Maria. A letra é quase uma tradução: Ai, Maria. Ai, Maria A canção Vieni sul mar foi sugadíssima. Em 1910 Eduardo das Neves adaptou-a para recepcionar a chegada do encouraçado Minas Gerais. Oh, Minas Gerais! Oh, Minas Gerais! E nada tem a ver com o Estado de Minas. Paulo Roberto, radialista famoso, é que fez outra letra, esta sim em louvor ao Estado: Oh, Minas Gerais! Engraçado é que o povo misturou tudo e adotou os versos do navio como homenagem ao estado. Nessa esteira Joel Almeida gravou Adeus Guiomar, com a mesma melodia. Até na música clássica os sugadores entraram como parceiros. A marcha de Gomes filho, Gosto de você, no duro!, usou a Segunda parte da Sinfonia n° 8 de Schubert. O Minueto em Sol Maior, de Beethoven, foi sucesso estrondoso no Carnaval de 1948, num empréstimo de Herivelto Martins e Benedito Lacerda: Minueto tu és no Municipal É claro que o desenrolar dos fatos que contei nem sempre foi tranqüilo e pacífico. Muitas vezes os lesados botaram a boca no mundo e tomaram satisfações pessoais. Uma das maiores confusões teve como protagonista Lamartine Babo. Com seu inegável talento e intuição buscou no fundo de uma gaveta, onde mofava há dois anos, na gravadora, a marcha Mulata, de dois compositores pernambucanos, os Irmãos Valença. Temperou-a à carioca e transformou-a com a ajuda de Pinxiguinha, que criou uma introdução verdadeiramente contagiante, no maior sucesso carnavalesco de todos os tempos: O Teu Cabelo Não Nega. Houve o protesto dos pernambucanos, que foram incorporados à autoria. Só como curiosidade mostro o primeiro verso da composição original: Nestas terras do Brasil Vinha a seguir a parte antológica: O teu cabelo não nega, mulata O folclore é outra mina. Não há fato folclórico que não tenha sido explorado pelos garimpeiros. Um antigo coco nordestino foi aproveitado em 1919 no O Malhador, de Pinxiguinha, Donga e Mauro de Almeida: Oh Nicolau Em 1927 ressurgiu como O siri tá no pau, de Orlando Vieira, e encerrou a trajetória, por enquanto, em 1964, com Bigorrilho de Paquito, Romeu Gentil e José Gomes. Trepa Antônio Uma canção de ninar já foi usada em Acalanto de Caymmi, no Eu, hein, Boi! de Arnô Provenzano e Otolindo Lopes e Boi da Cara Preta de Zuzuca em 1973. Em 1960, Miguel Gustavo usou o Peixe Vivo. Aloísio Marins com A. Montenegro apareceu em Fui no Tororó e com Pereira Jr. em Passa, passa, gavião. O Atirei o pau no gato foi usado por José Messias e a trinca Raul Gil, Antônio Queiroz e Gilberto Montenegro em carnavais diferentes. Em 1967, Ivo Santos, Raul Sampaio e Zilda do Zé foram buscar o De marré, marré. Caymmi usou, com muita sensibilidade, o folclore baiano em A Preta do Acarajé e Festa de Rua. Gutemberg Guarabira ganhou a parte nacional no Festival Internacional da Canção com sua Margarida, cuja introdução é uma cantiga de roda. Num golpe de astúcia, Carlos Imperial registrou como obra sua o Meu Limão, Meu Limoeiro. Quer dizer, cantou ou tocou, tem de lhe pagar direitos autorais. Brasinha não fez por menos e pegou o U-Ni-Du-Ni-TÊ. Rômulo Paes e Gentil de Castro surgiram no Carnaval de 1967 com A Batatinha: Batatinha quando nasce Corisco e Carlos bandeira, no Carnaval de 1976, repetiram o tema sem preocupação de pensar muito: Batatinha quando nasce Dora Lopes, José Di e Celso Teixeira em 1971 não fizeram por menos: Vem cá bidu Leonardo Mota recolheu do folclore paraibano os versos: Bravo ao cabelo castanho Segundo Volta Seca, ex-cangaceiro, e hoje registrado como autor, esses versos um pouco modificados eram cantados por Lampião e cabras quando em caminha. A verdade é que a prática de apropriação musical não é nenhum desabono nacional. Os adeptos da teoria o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil podem argumentar, e com razão, que lá no grande vizinho do norte essas adaptações pululam e cansaram de enriquecer compositores famosos. Houve uma época em que o avanço nas músicas clássicas foi tão ostensivo que provocou a explosão de um crítico inglês: Tirem as patas! Vou fazer uma pequena, mas significativa listagem: O Hino dos Fuzileiros Navais foi decalcado numa ária de uma ópera de Offenbach; I´m Always chasing rainbows, o grande sucesso de Harry Carrol e Joseph Mc Carty foi buscado em Fantasia Impromtu em dó sustenido menor, de Chopin; Al Jolson, em parceria com Vicent Rose, abocanhou a tosca, de Puccini e levou processo; A Canção de Aniversário saiu de Ondas do Danúbio de Ivanovici! On the isle of May, de André Kostelanetz e Mack Davis inspirou-se no Andante Cantabile de Tchaikovisky e Moon Love dos mesmos autores na Quinta Sinfonia, do mesmo compositor! Outra dupla, Robert Wright e Chet Forrest se associaram a Grieg e Borodin; In the valley of the Moon, de Charles Tobias, é o Concerto para violino de Mendelsson; Sigmund Romberg copiou seu Song of Love de Schubert; O Minueto de Beethoven se transformou em When the lights Go on Again, garanto que sem o talento da adaptação tupiniquim. Na Argentina, igualmente, essas coisas acontecem. Vejam que Canaro, no tango, despertou grande respeito . Foi acusado de apropriar-se de melodias anônimas, outras comprava, recebia outras de presente. Madresilva, uma de suas obras primas tomou oito compassos de El cuzquito, de Vicente Greco, suprimindo apenas uma nota por compasso. A verdade é que a nossa MPB sai incólume desses deslizes, continuando a ser, disparada, a mais inspirada e criativa do mundo.
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©2002 Renato Vivacqua |
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