Livro MPB História de Sua Gente - Capítulo 7

O VELHO CANTAR DO BONDE

A crise do petróleo tem concorrido para que os saudosistas voltassem a reverenciar a memória dos bondes. Sua revalorização tem sido defendida por especialistas em urbanismo e os jornais cariocas têm noticiado com certa freqüência e cogitação de sua volta aos subúrbios. Muitos clamam que sua extinção foi uma das razões do desencadeamento do desvario automobilístico que atacou e endividou grande parte dos brasileiros.

Os personagens do bonde eram três, geralmente lusitanos: o fiscal, frio e formal, que anotava o número de passageiros nas paradas; o motorneiro que conduzia, impoluto, o carro e o sacrificado condutor que, na realidade, não conduzia nada, mas sim cobrava as passagens. Misto de equilibrista e contorcionista, galgando montanhas de pingentes, era sempre alvo de gozações. Impossível, portanto, que sendo o bonde uma figura tão popular, não fosse explorado por nosso cotidiano musical. Foi, e muito, protagonista de música de sucesso, principalmente carnavalesca. Sua aposentadoria, sem dúvida, contribuiu em grande parte para o estertor do carnaval de rua.

Dois conceituados pesquisadores, Tinhorão e Jota Efegê já publicaram trabalhos sobre a presença do bonde no carnaval. Este artigo é uma reciclagem do assunto. O bonde se incorporou ao temário carnavalesco por volta de 1930 e até sua agonia, em 1962, era pixado ou badalado nos dias de Momo. Algumas composições ficaram eternas como O Bonde São Januário, de Wilson Batista e Ataulpho Alves, sucesso em 1941 na voz de Ciro Monteiro. Originalmente a letra era:

“O Bonde São Januário
Leva mais um sócio otário
Só eu não vou trabalhar”.

Lourival Fontes, chefe da censura do Estado Novo, não gostou do incentivo à malandragem e deu um arrocho, obrigando os autores a desagravarem o trabalho. Ficou assim:

“O Bonde São Januário
Leva mais um operário
Sou eu que vou trabalhar.”

Em 1938, Alvarenga e Ranchinho já haviam estourado com Seu Condutor, cujo refrão, reproduzindo o tilintar da campainha, pegou fácil:

“Seu condutor dim dim
Seu Condutor dim dim
Pára o bonde pra descer o meu amor”.

No mesmo ano J. Casacata e Leonel Azevedo brilharam com a marchinha Não Pago o Bonde, onde a instituição nacional do pistolão funcionava:

“Não pague o bonde iaiá
Não pague o bonde ioyô
Não pague o bonde
Que eu conheço o condutor.”

Nos festejos de 32, Noel Rosa e Eduardo Souto lançaram o engraçado Palpite:

“Palpite
Palpite
Nasceu no crâneo de quem teve meningite
Num dia desses perguntaste ao condutor
Se os bondes passavam na rua do Ouvidor”.

Mais antiga ainda é a marcha Zizinha de José Francisco de Freitas, abordando a bolinação nos coletivos, fato corriqueiro na época, e que fez o maior sucesso no carnaval de 1926:

“Noutro dia num bondinho
Um coronel já bem velhinho
Deu-me um beliscão
Pegou-me na mão.”

Cai, Cai de Roberto Martins, foi muito cantado em 1940;

“Cai, cai
Eu não vou te levantar
Cai, cai
Quem mandou escorregar
Cai a rosa da roseira
Cai do bonde o passageiro
Pra morena mais faceira
Do meu bolso cai dinheiro”.

Em 1942, os campeoníssimos Haroldo Lobo e Milton de Oliveira criticavam, com verve, alguns bondes que eram verdadeiras feiras livres:

“Tem galinha no bonde
Tem, tem que eu vi
Galinha no bonde
É abacaxi”.

Ainda em 1942, Joel e Gaúcho foram sucesso com a foliona Mulher do Padeiro.

“A mulher do padeiro trabalhava noite e dia
E viajava só no bonde da Alegria
Cantava e pulava
E o padeiro não sabia.”

Em 1966, o bonde já despertava saudades em J. Roberto Kelly e Meira Guimarães:

“Saudosos carnavais de antigamente
De tanta gente no bonde.”

A última referência carnavalesca ao bonde parece ter sido a marcha de 1972 O Bonde da Lapa, gravada pelas As Gatas.

“O bonde que deixou saudade
Na cidade
Foi o Lapa
O Lapa que ficou no mapa
Na lembrança de ioiô e iaiá”.

Fora do Carnaval ele foi também muito citado. O Bonde Camarão de Cornélio Pires e Mariano da Silva, data de 1929:

“Aqui em São Paulo o que mais me amola
É esses bondes que nem gaiola
Cheguei, abri uma portinhola
Levei um tranco e quebrei a viola...
E inda pus dinheiro na caixa de esmola”.

O bonde deu lugar a muitas expressões populares, como neste samba de Paulo Carvalho, que Carmem Miranda gravou em 1938:

“Amor eu sei que você não tem não
Mas isso faz mal algum
Seu coraçãozinho é um estribo de bonde
Que tem sempre lugar pra mais um.”

Noel Rosa gostava de cantar o bonde. Coisas Nossas é um delicioso desfile de tipos:

“Baleiro, jornaleiro, motorneiro
Condutor e passageiro, prestamista e vigarista
E o bonde que parece uma carroça
São coisas nossas, são coisas nossas.”

Na marcha Seu Jacinto goza um debilóide:

“Parou o bonde, o motorneiro disse à gente
Que é por falta de corrente
Que o bonde não sobe o morro
E o Seu Jacinto foi correndo bem ligeiro
Pra buscar no seu terreiro
Uma corrente de cachorro”.

As Rosalinas curtiam bonde:

“Mas Rosalina por que tu me feres tanto
Não te comove esta mágoa que vivo a sofrer
Pois eu te juro minha fruta de conde
Que até pingente de bonde"

Eu vou ser para morrer (Orestes Barbosa).

“O bonde do horário já passou
E a Rosalina não me chamou
Fazem cinco dias que não vou trabalhar”
(Haroldo Lobo e M. Oliveira).

Vassourinha fez o bonde divã de psicanalista:

“Pára o bonde, pára o bonde, que vai entrar
mais um
Quando eu pego o bonde errado vou até o fim
da linha
E pra passar as mágoas
Vou tocando a campainha”.
(Chik-Chik-Bum de Antonio Almeida).

Mas desde o princípio do século que o bonde era tema musical. O modinheiro cearense Ramos Cotoco, implicava com as Bondemaníacas:

“Numa rua onde passa o bonde
Moça não pode engordar
Não trabalha, não estuda
Não descansa... é um penar
Se o bonde passa está na janela
Se o bonde volta ainda está ela
Namora a todos, é um horror
Aos passageiros, ao condutor”.

Os saudosistas não faltam, como Martinho da Vila:

“Não chore, meu amor
Aqui já não tem mais bonde
Vou de outra condução”.

Edu Lobo no Cordão das Saideirasrecorda:

“Tempo do corso na rua da Aurora
O moço do passo, menino e senhora
O bonde de Olinda pra baixo e pra cima”.

Billy Blanco em Rio do Meu Amor não o esquece:

“Rio do Vasco e Botafogo, América e Bangu
Maracanã vibrando em dia de Fla-Flu
Do bonde que é saudade ornamentando praça”.

Até a turma jovem lembra dele:

“E viva o mundo inteiro
Mineiro não compra bonde
Pois inventou o avião”.
(Salve, Salve de Eduardo Araújo e Durães).

Gordurinha canta outro protesto mineiro:

"Quem disser que o mineiro é bobo
Vai cair na boca do lobo
As coisas boas que o mineiro inventa
Ninguém comenta
Todo mundo esconde
Só sabem dizer quer o mineiro
Foi pro Rio de Janeiro
Pra comprar um bonde”.

O tropicalismo não podia ignorá-lo:

“O táxi, o bonde, a luta
Meu amor é indiferente
Minha mãe, meu pai, a rua”.
(Caetano Veloso e Torquato Neto).

Milton Nascimento e Fernando Brant tiveram um bonde no caminho do bar:

“ E lá vinha o bonde
No sobe e desce ladeira
E o motorneiro parava a orquestra um minuto
Para me contar casos
Da campanha da Itália”.

Por fim a glória suprema: virou tema musical de novela:

“Menina dos cabelos longos
Quero te levar pra longe
No primeiro bonde a gente pode partir”.

É isso aí, a expectativa cresce, e a qualquer momento o bonde poderá ser novamente no nosso cancioneiro popular, talvez numa marchinha chamada Quem foi rei...

 

©2002 Renato Vivacqua