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Livro MPB História de Sua Gente - Capítulo 7 O VELHO CANTAR DO BONDE A crise do petróleo tem concorrido para
que os saudosistas voltassem a reverenciar a memória dos bondes.
Sua revalorização tem sido defendida por especialistas em
urbanismo e os jornais cariocas têm noticiado com certa freqüência
e cogitação de sua volta aos subúrbios. Muitos clamam
que sua extinção foi uma das razões do desencadeamento
do desvario automobilístico que atacou e endividou grande parte
dos brasileiros. O Bonde São Januário Lourival Fontes, chefe da censura do Estado Novo, não gostou do incentivo à malandragem e deu um arrocho, obrigando os autores a desagravarem o trabalho. Ficou assim: O Bonde São Januário Em 1938, Alvarenga e Ranchinho já haviam estourado com Seu Condutor, cujo refrão, reproduzindo o tilintar da campainha, pegou fácil: Seu condutor dim dim No mesmo ano J. Casacata e Leonel Azevedo brilharam com a marchinha Não Pago o Bonde, onde a instituição nacional do pistolão funcionava: Não pague o bonde iaiá Nos festejos de 32, Noel Rosa e Eduardo Souto lançaram o engraçado Palpite: Palpite Mais antiga ainda é a marcha Zizinha de José Francisco de Freitas, abordando a bolinação nos coletivos, fato corriqueiro na época, e que fez o maior sucesso no carnaval de 1926: Noutro dia num bondinho Cai, Cai de Roberto Martins, foi muito cantado em 1940; Cai, cai Em 1942, os campeoníssimos Haroldo Lobo e Milton de Oliveira criticavam, com verve, alguns bondes que eram verdadeiras feiras livres: Tem galinha no bonde Ainda em 1942, Joel e Gaúcho foram sucesso com a foliona Mulher do Padeiro. A mulher do padeiro trabalhava noite e dia Em 1966, o bonde já despertava saudades em J. Roberto Kelly e Meira Guimarães: Saudosos carnavais de antigamente A última referência carnavalesca ao bonde parece ter sido a marcha de 1972 O Bonde da Lapa, gravada pelas As Gatas. O bonde que deixou saudade Fora do Carnaval ele foi também muito citado. O Bonde Camarão de Cornélio Pires e Mariano da Silva, data de 1929: Aqui em São Paulo o que mais me amola O bonde deu lugar a muitas expressões populares, como neste samba de Paulo Carvalho, que Carmem Miranda gravou em 1938: Amor eu sei que você não tem não Noel Rosa gostava de cantar o bonde. Coisas Nossas é um delicioso desfile de tipos: Baleiro, jornaleiro, motorneiro Na marcha Seu Jacinto goza um debilóide: Parou o bonde, o motorneiro disse à gente As Rosalinas curtiam bonde: Mas Rosalina por que tu me feres tanto Eu vou ser para morrer (Orestes Barbosa). O bonde do horário já passou Vassourinha fez o bonde divã de psicanalista: Pára o bonde, pára o bonde, que vai
entrar Mas desde o princípio do século que o bonde era tema musical. O modinheiro cearense Ramos Cotoco, implicava com as Bondemaníacas: Numa rua onde passa o bonde Os saudosistas não faltam, como Martinho da Vila: Não chore, meu amor Edu Lobo no Cordão das Saideirasrecorda: Tempo do corso na rua da Aurora Billy Blanco em Rio do Meu Amor não o esquece: Rio do Vasco e Botafogo, América e Bangu Até a turma jovem lembra dele: E viva o mundo inteiro Gordurinha canta outro protesto mineiro: "Quem disser que o mineiro é bobo O tropicalismo não podia ignorá-lo: O táxi, o bonde, a luta Milton Nascimento e Fernando Brant tiveram um bonde no caminho do bar: E lá vinha o bonde Por fim a glória suprema: virou tema musical de novela: Menina dos cabelos longos É isso aí, a expectativa cresce, e a qualquer momento o bonde poderá ser novamente no nosso cancioneiro popular, talvez numa marchinha chamada Quem foi rei...
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©2002 Renato Vivacqua |
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