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Livro MPB História de Sua Gente - Capítulo 9 A AGONIA DO CHAPÉU DE PALHA O brasileiro, com seu espírito inventivo e sua musicalidade, vem criando instrumentos e sons inovadores, enriquecendo com essas bossas a sua música Popular. O surdo, bolado por Bide, nasceu de uma lata grande de manteiga; Noel Rosa, na sua gravação de Gago Apaixonado, tem o original acompanhamento de um lápis nos dentes; na primeira cópia de Helena, Helena foi criado o pistom nasal; Biluca tocava numa folha de ficus. Alguns cantores tinham sua marca registrada, como Ciro Monteiro e sua caixa de fósforos. Entre os improvisados instrumentos de percussão, o que mais marcou os intérpretes foi sem dúvida o chapéu de palha, que era moda entre os almofadinhas. Quem primeiro o usou como elemento de ritmo foi o cantor Luiz Barbosa. Iniciou-se na vida artística tocando pandeiro de aro de aço, porém, para ele, muito magro e já minado pela tuberculose, era um tour de force, com dez minutos cansava. A convite do compositor Nássara (Mundo de Zinco, Alá lá ô, Periquitinho verde, etc.) nasceu como cantor. Com excelente balanço, cantando num estilo coloquial muito antes da bossa nova, despertou logo atenção. Um dos seus maiores êxitos foi Risoleta de Raul Marques e Moacyr Bernardino: Eu vou mandar prender Fez grande sucesso interpretando No Taboleiro da Baiana e sua gravação em dupla com Carmem Miranda se tornou histórica. Em Alô, Alô Carnaval, filme de 1936, interpretou de João de Barro e Alberto Ribeiro o delicioso Seu Libório, dando muito trabalho na hora do playback, pois com sua versatilidade cantava o samba sempre de maneira diferente. Morreria sem gravá-lo. E ele acabou sucesso na voz de Vassourinha. Seu Libório tem três
vizinhas Cantou outro número no filme, um non-sense total, que também não seria gravado: Fox-Mix. Tom Mix, buck Jones and Richard Dix A Lalá e a Lelé, de Manezinho Araújo, teve repercussão: A Lalá e a Lelé Chegou a aventurar-se pela composição com o Sou Jogador. Sou jogador Tinha um apurado senso de divisão e muitos contemporâneos como Silvio Caldas, Nássara, Mário Reis, Ciro Monteiro, consideravam-no o maior cantor brasileiro. Alguns críticos atuais não concordam com o título, já que, pelas gravações deixadas, ele, apesar do enorme talento, não chega a merecer o galardão. Nássara explica dizendo que ele acordava às seis da tarde e até duas da manhã ficando cuspinhando uma secreção que o obrigava a pigarrear e o atrapalhava muito. A voz só se tornava límpida de madrugada, que não era momento apropriado para se ir a um estúdio. Faleceu em 1938 com 28 anos. Deixou poucos discos, mas um discípulo carioca maneiroso e cheio de picardia chamado Dilermando Pinheiro, coma mesma escola rítmica e o chapéu de palha. Tocava também pandeiro e, ao conhecer Luiz Barbosa, resolveu adotar o palhinha e ser cantor. Foi gongado por Ary Barroso, passando a cantar em circos. Finalmente, conseguiu estrear em 1936. A partir das primeiras tentativas levou vinte anos para gravar o primeiro disco. Biriteiro durante mais de trinta anos, renegou a cachaça, dizendo que ela hoje tem Flit e criolina. Com verve explicava; So igual a cobra de farmácia, conservado em álcool não incho. A encheção de cara diária trouxe-lhe alguns contratempos como, certa tarde, na qual se apresentou para cantar na Rádio Nacional foi expulso, já que seu compromisso era na Rádio Tupi. Recriou os maiores sucessos de Luiz Barbosa, como Risoleta, Lalá e Lelé; de Vassourinha, como Seu Libório, O Trem atrasou Patrão o trem atrasou Estourou no carnaval de 41 na voz de Roberto Silva, mas só permaneceu lembrado graças a Dilermando que regravou. Minha Palhoça, de J. Cascata, tornou-se marcante interpretada com seu molho inconfundível: Se você quisesse Lulu de Madame foi outro sucesso: Queria ser lulu de madame francesa Em maio de 1975 o coração brecou. Mesmo tendo gravado apreciável número de discos e ter sido junto com Moreira da Silva, um dos ases do samba de breque, nunca se consagrou numa criação. Foi na realidade uma espécie de termostato do sucesso alheio, mantendo em evidência músicas que provavelmente teriam êxito passageiro. O terceiro cultivador da arte do chapéu de palha é outro carioca: Joel de Almeida. De bancário demitido por dormir em serviço, fruto das serenatas, foi ser arquivista da Casa Edison, famosa gravadora. De seu posto ouvia os ensaios dos maiores cartazes da época e a música começou a entrar-lhe no sangue. Nessa época conheceu Luiz Barbosa e ficou cativado pela bossa do cantor. Cismou de entrar no ambiente musical e junto com FranciscoRangel, o Gaúcho, formou, em 1930, uma dupla para cantar em festinhas. Tocava tamborim, pandeiro e chapéu. Em 1931, estreiam no rádio e são chamados os Gêmeos da Voz. O primeiro sucesso surgiu em 1935 com Estão Batendo, de Gadé e Walfrido Silva; Estão batendo se for comigo
diga que não estou (Fui pra Paris,fui pra Moscou) No mesmo ano gravam da autoria de ambos O chapéu também diz: Meu chapéu na batucada O Carnaval de 36 traz a consagração com Pierrot Apaixonado. Um pierrot apaixonado As vitórias se sucedem: Mulher do padeiro, Aurora, Cai, cai Boog Woogie do rato. Em 1952, Gaúcho resolve parar e Joel vai em frente só, ou melhor, com o inseparável chapéu de palha. Um certo período meio perdido e explode no Carnaval de 56 com Quem sabe, sabe: Quem sabe, sabe Em 58 todo mundo cantou: Madureira chorou Em 59 Vai ver que é de Carvalhinho e Paulo Gracindo foi outro estouro: Se veste de baiana Meio desligado, certa vez foi visitar Pixinguinha e ficou três dias, sendo quase abandonado pela mulher. Joel, sessentão, é o último representante dessa tão criativa e pitoresca arte de embelezar o samba. Continua em atividade, mas a escola cerrou as portas com ele, por falta de alunos. Daqui a algum tempo, do chapéu de palha ressoará apenas o som da saudade.
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©2002 Renato Vivacqua |
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