|
A poética do consumo na Mpb |
|
|
|
17
(1 voto, média de 5.00 em 5)
|
Escrito por Renato Vivacqua
|
|
| | A música Popular Brasileira, desde o surgimento do disco no início do século, veiculou nomes de produtos comerciais, com ou sem finalidade propagandística. A antiquíssima modinha O Chefe da Orchestra falava no fortificante Jatahi:
O trombone fraquejava Tli hi hi A vista disso tiveram de tomar Muito Jatahi.
Em 1927, Sinhô, com tremendo caradurismo lançava o samba carnavalesco Só na Casa Aguiar, promovendo-lhe os preços baixos. A notável dupla Noel e Vadico venceu um concurso com A Marcha do Dragão, onde louvava uma das mais conhecidas lojas do Rio na década de 30:
Você é mais conhecido Do que níquel de tostão Mas não pode ficar mais popular Do que “O Dragão”.
Os cigarros foram muito mais decantados. Liberty e Yolanda eram dos mais consumidos nos anos trinta e foram lembrados por letristas famosos. Lamartine Babo, na marchinha Moleque Indigesto, gravada por Carmem Miranda em 1933, cita Yolanda:
Eta moleque bamba Pega a cabrocha, pisca o olho e cai no samba Esse moleque sabe ser bom Faz o “footing” lá no Leblon Bebe... joga, fuma Yolanda Toca trombone na banda.
Mais recentemente Adoniran Barbosa relembra-o no seu Tocar na Banda.
Tocar na banda, pra ganhar o quê? Duas mariolas e um cigarro Yolanda.
Noel Rosa diz no nostálgico João Ninguém:
João Ninguém Não trabalha e é dos tais Que joga sem ter vintém E fuma Liberty Ovais.
Aldir Blanc em Kung Fu no Estácio aborda o cigarro:
Bem que eu falei Antes da briga não se toma chá Ô Paulo põe um óleo aí E me acende um hawaí.
Ivan Lins em Poeira Cinza e Fumaça, solitário, dá sua pitada:
Um toca disco ligado Um livro aberto na cama TV sem som Melodrama E eu sem jantar, acordado Dois Hollywood findados.
A popular cerveja também teve sua publicidade musicada. Ary Barroso e Bastos Tigre, sem cerimoniosamente, lançaram para o Carnaval de 1935, com Orlando Silva, a marcha Chopp em Garrafa:
O Brahma Chopp em garrafa Querido em todo Brasil Corre longe, a banca abafa É igualzinho ao de barril.
Da dupla Chico buarque e Caetano Veloso saiu o Vai Levando:
Mesmo com toda a fama Com toda a brahma Com toda a cama Com toda a lama A gente vai levando.
Em 1958 houve o surto de gripe asiática e a composição carnavalesca Essa mão me pega, ensinava a preveni-la:
Essa não me pega Não me pega não Eu bebo Caracu Misturado com limão.
Entre os refrigerantes a terrosa Coca-Cola é a mais badalada. Caetano Veloso cita-a no peripatético Alegria, Alegria.
Eu tomo uma Coca-Cola Ela pensa em casamento Uma canção me consola.
Torna a prestigiá-la em Você não me entende.
Você está sempre aflita Com lágrimas nos olhos De cortar cebola Você é tão bonita Você traz Coca-Cola eu tomo Você bota a mesa eu como.
Ainda o baiano, que parece fixado na bebida, diz em Jóia.
Copacabana, Copacabana Loura total e completamente louca A menina muito contente Toma Coca-Cola na boca.
Gonzaga Jr. protesta contra o colonialismo gustativo da prima:
A minha prima lá do Piauí Não bebe mais garapa Vai de Coca-Cola.
Dia a Dia, de Peninha, também fala nela:
Uma Coca, um cheese salada Um cigarro, outro cigarro.
Lá vem de novo em Dorothy Lamour, de Ednardo.
No drama da primeira fila No drama do teu sabor azul Estranho como a primeira Coca-Cola.
Milton Nascimento também não resistiu ao fascínio:
A primeira Coca-Cola foi Me lembro bem agora Nas asas da Panair.
Outra temática que atrai os compositores é o automóvel. Marcos e Paulo Sergio Valle fizeram do Mustang Cor de Sangue uma ressalva à sociedade industrial. A Ford, numa manobra inteligente, fingindo ignorar a crítica, capitalizou o sucesso da música, comprando-lhes o direito de usar o título.
Tenho um novo ideal, sexual Abandono a mulher virgem no altar Amo em ferro e sangue o Mustang.
No Carnaval de 1972, Helton Menezes desprestigia o carro:
Ai que luxo Sai de Mustang e só pega bucho.
No mesmo ano, Maria Cafona de jorge Costa e Marly de Oliveira melhora a imagem do carro:
Lá vem a Maria Cafona Bonitona que nem ela só Vai à boate de Mustang Não perde um filme bangue-bangue.
O caipira Léo Canhoto evoluiu:
Se eu tivesse grana Pra comprar um Mustang Passava na rua onde ela mora Num poeirão.
O Cadillac sempre foi bem cotado, como nessa marcha do Carnaval de 1962:
Ai, ai chegou o Belo Antonio É bonito mas não é de matrimônio Tem Cadillac, anda bacana Só chega em casa de madrugada.
Zé Rodrix é saudosista:
Vamos ver a lua Depois daquela montanha Passeando neste Cadillac 52.
Na marcha Casamento da Lalá faz parte do dote:
Quero, quero tudo Pra casar com a Lalá Apartamento na barra dá pra morar Um Cadillac pras “ondas” no Joá.
Paulo Gesta e A. Rocha sonham também com o ex-carrão:
Queria ser lulu de madame francesa Pra passear de dia em um Cadillac Apreciando a maravilha da natureza.
Adilson Ramos aparece com um twist:
Meninas não se assustem não Sou eu que acabo de chegar No meu Karmann Ghia.
Em Ai de mim Copacabana Caetano e Torquato Neto a grande aspiração do brasileiro está presente:
Nossos filhos, nosso fusca Nossa butique, na Augusta O Ford Galaxie, o medo de não ter Um Ford Galaxie.
Gil não fica atrás do Conterrâneo:
Zeca, meu pai comprou um Volkswagen blue Zeca, meu pai comprou um carrinho todo azul.
Raul Seixas, insatisfeito, canta em Ouro de Tolo:
Eu devia estar contente Por ter conseguido comprar Um Corcel 73.
A aristocrática Mercedes não poderia faltar. Eis Apartamento em Copacabana, de O. Monello e João Rotenn:
Eu quero ter duas Mercedes Que é pra não viver sozinho Uma com chofer e tudo A outra pra fazer carinho.
Zé Rodrix se conforma com o sedentarismo:
A porta da minha Mercedes O único exercício que eu fazia (abrir a porta) Hoje o meu motorista faz por mim.
Esta marcha de Luis Cavalcanti e Bibi podia fazer eco à atual campanha de racionamento de gasolina:
Voltou de Monark pedalando Pelas ruas vem cantando Um dia eu chego lá Um dia eu chego lá.
No nosso cancioneiro falou-se até em máquinas fotográficas:
O que você não sabe Nem sequer pressente É que os desafinados Também têm um coração Fotografei você na minha Rolley-flex... (Desafinado, de Newton Mendonça e Tom Jobim) Tem um cavalo que comprei em Pernambuco E não estranha pista Lá tem jornal, lá tem revista E uma Kodak para tirar nossa fotografia (Minha Palhoça, de J. Cascata).
Os produtos farmacêuticos também tiveram seu oba-oba musical. A marchinha de Klécus Caldas e Armando Cavalcanti fez sucesso:
Penicilina cura até defunto Petróleo bruto faz nascer cabelo Mas ainda está pra nascer O doutor Que cure a dor de cotovelo.
Tom Zé em Jeitinho Dela é de um non-sense total:
Geladeira já teve febre Penicilina teve bronquite Melhoral teve dor de cabeça E quem quiser que acredite.
Gilberto Gil lembra uma pílula famosa:
O sonho acabou dissolvendo A pílula de Vida do Dr. Ross Na barriga da Maria.
Na sua deliciosa Canção pra Inglês ver, Lamartine Babo faz uma mixórdia:
Exilir de Inhame Reclame de andaime Mon Paris je t’aime Sorvete de creme.
O excelente letrista Aldir Blanc fez muito sucesso com seu curativo:
No dedo, falso brilhante Brincos iguais ao colar E a ponta de um torturante band-aid No calcanhar.
Caetano Velloso em Superbacana satiriza a supervalorização:
Superbacana Superbacana Super Homem Superflit Supervinc Superhist Superviva.
De novo o inspirado Aldyr Blanc com João Bosco e Cláudio Tolomei cantando a saga de um estropiado por amor:
Olhe meu bem o que restou Daquele grande herói sem seu amor Enlouqueci e ando dodói Como Tarzã depois da gripe De emplastro Sabiá.
Mais adiante reforça a dose: Maracujina já não resolve Ao recordar meias fumês, ligas vermelhas E um olhar fatal.
Em Amigo da Onça com Silvio Silva dá conselho:
Não é possível Você não se comove Vá tomar um Engove.
Ainda o médico Aldyr com João Bosco receitando em Bandalhismo:
Como os pobres otários da Central Já vomitei sem lenço e Sonrisal P.F. de rabada e agrião.
Ele com Suely costa em Altos e Baixos.
Meu táxi, meu uísque, Dietil, Diempax Ah mas há que se louvar entre altos e baixos O amor quando traz tanta vida.
A freqüência com que são cantados os produtos nos faz pensativos: estarão os compositores despertos e conscientes para os riscos ou entorpecidos pelo bombardeio massacrante dos meios de comunicação?
|
|