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Escrito por Renato Vivacqua
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| | A crise do petróleo tem concorrido para que os saudosistas voltassem a reverenciar a memória dos bondes. Sua revalorização tem sido defendida por especialistas em urbanismo e os jornais cariocas têm noticiado com certa freqüência e cogitação de sua volta aos subúrbios. Muitos clamam que sua extinção foi uma das razões do desencadeamento do desvario automobilístico que atacou e endividou grande parte dos brasileiros.
Os personagens do bonde eram três, geralmente lusitanos: o fiscal, frio e formal, que anotava o número de passageiros nas paradas; o motorneiro que conduzia, impoluto, o carro e o sacrificado condutor que, na realidade, não conduzia nada, mas sim cobrava as passagens. Misto de equilibrista e contorcionista, galgando montanhas de pingentes, era sempre alvo de gozações. Impossível, portanto, que sendo o bonde uma figura tão popular, não fosse explorado por nosso cotidiano musical. Foi, e muito, protagonista de música de sucesso, principalmente carnavalesca. Sua aposentadoria, sem dúvida, contribuiu em grande parte para o estertor do carnaval de rua.
Dois conceituados pesquisadores, Tinhorão e Jota Efegê já publicaram trabalhos sobre a presença do bonde no carnaval. Este artigo é uma reciclagem do assunto. O bonde se incorporou ao temário carnavalesco por volta de 1930 e até sua agonia, em 1962, era pixado ou badalado nos dias de Momo. Algumas composições ficaram eternas como O Bonde São Januário, de Wilson Batista e Ataulpho Alves, sucesso em 1941 na voz de Ciro Monteiro. Originalmente a letra era:
O Bonde São Januário Leva mais um sócio otário Só eu não vou trabalhar.
Lourival Fontes, chefe da censura do Estado Novo, não gostou do incentivo à malandragem e deu um arrocho, obrigando os autores a desagravarem o trabalho. Ficou assim:
O Bonde São Januário Leva mais um operário Sou eu que vou trabalhar.
Em 1938, Alvarenga e Ranchinho já haviam estourado com Seu Condutor, cujo refrão, reproduzindo o tilintar da campainha, pegou fácil:
Seu condutor dim dim Seu Condutor dim dim Pára o bonde pra descer o meu amor.
No mesmo ano J. Casacata e Leonel Azevedo brilharam com a marchinha Não Pago o Bonde, onde a instituição nacional do pistolão funcionava:
Não pague o bonde iaiá Não pague o bonde ioyô Não pague o bonde Que eu conheço o condutor.
Nos festejos de 32, Noel Rosa e Eduardo Souto lançaram o engraçado Palpite:
Palpite Palpite Nasceu no crâneo de quem teve meningite Num dia desses perguntaste ao condutor Se os bondes passavam na rua do Ouvidor.
Mais antiga ainda é a marcha Zizinha de José Francisco de Freitas, abordando a bolinação nos coletivos, fato corriqueiro na época, e que fez o maior sucesso no carnaval de 1926:
Noutro dia num bondinho Um coronel já bem velhinho Deu-me um beliscão Pegou-me na mão.
Cai, Cai de Roberto Martins, foi muito cantado em 1940;
Cai, cai Eu não vou te levantar Cai, cai Quem mandou escorregar Cai a rosa da roseira Cai do bonde o passageiro Pra morena mais faceira Do meu bolso cai dinheiro.
Em 1942, os campeoníssimos Haroldo Lobo e Milton de Oliveira criticavam, com verve, alguns bondes que eram verdadeiras feiras livres:
Tem galinha no bonde Tem, tem que eu vi Galinha no bonde É abacaxi.
Ainda em 1942, Joel e Gaúcho foram sucesso com a foliona Mulher do Padeiro.
A mulher do padeiro trabalhava noite e dia E viajava só no bonde da Alegria Cantava e pulava E o padeiro não sabia.
Em 1966, o bonde já despertava saudades em J. Roberto Kelly e Meira Guimarães:
Saudosos carnavais de antigamente De tanta gente no bonde.
A última referência carnavalesca ao bonde parece ter sido a marcha de 1972 O Bonde da Lapa, gravada pelas As Gatas.
O bonde que deixou saudade Na cidade Foi o Lapa O Lapa que ficou no mapa Na lembrança de ioiô e iaiá.
Fora do Carnaval ele foi também muito citado. O Bonde Camarão de Cornélio Pires e Mariano da Silva, data de 1929:
Aqui em São Paulo o que mais me amola É esses bondes que nem gaiola Cheguei, abri uma portinhola Levei um tranco e quebrei a viola... E inda pus dinheiro na caixa de esmola.
O bonde deu lugar a muitas expressões populares, como neste samba de Paulo Carvalho, que Carmem Miranda gravou em 1938:
Amor eu sei que você não tem não Mas isso faz mal algum Seu coraçãozinho é um estribo de bonde Que tem sempre lugar pra mais um.
Noel Rosa gostava de cantar o bonde. Coisas Nossas é um delicioso desfile de tipos:
Baleiro, jornaleiro, motorneiro Condutor e passageiro, prestamista e vigarista E o bonde que parece uma carroça São coisas nossas, são coisas nossas.
Na marcha Seu Jacinto goza um debilóide:
Parou o bonde, o motorneiro disse à gente Que é por falta de corrente Que o bonde não sobe o morro E o Seu Jacinto foi correndo bem ligeiro Pra buscar no seu terreiro Uma corrente de cachorro.
As Rosalinas curtiam bonde:
Mas Rosalina por que tu me feres tanto Não te comove esta mágoa que vivo a sofrer Pois eu te juro minha fruta de conde Que até pingente de bonde Eu vou ser para morrer (Orestes Barbosa). O bonde do horário já passou E a Rosalina não me chamou Fazem cinco dias que não vou trabalhar (Haroldo Lobo e M. Oliveira).
Vassourinha fez o bonde divã de psicanalista:
Pára o bonde, pára o bonde, que vai entrar mais um Quando eu pego o bonde errado vou até o fim da linha E pra passar as mágoas Vou tocando a campainha. (Chik-Chik-Bum de Antonio Almeida).
Mas desde o princípio do século que o bonde era tema musical. O modinheiro cearense Ramos Cotoco, implicava com as Bondemaníacas:
Numa rua onde passa o bonde Moça não pode engordar Não trabalha, não estuda Não descansa... é um penar Se o bonde passa está na janela Se o bonde volta ainda está ela Namora a todos, é um horror Aos passageiros, ao condutor.
Os saudosistas não faltam, como Martinho da Vila:
Não chore, meu amor Aqui já não tem mais bonde Vou de outra condução.
Edu Lobo no Cordão das Saideirasrecorda:
Tempo do corso na rua da Aurora O moço do passo, menino e senhora O bonde de Olinda pra baixo e pra cima.
Billy Blanco em Rio do Meu Amor não o esquece:
Rio do Vasco e Botafogo, América e Bangu Maracanã vibrando em dia de Fla-Flu Do bonde que é saudade ornamentando praça.
Até a turma jovem lembra dele:
E viva o mundo inteiro Mineiro não compra bonde Pois inventou o avião. (Salve, Salve de Eduardo Araújo e Durães).
Gordurinha canta outro protesto mineiro:
Quem disser que o mineiro é bobo Vai cair na boca do lobo As coisas boas que o mineiro inventa Ninguém comenta Todo mundo esconde Só sabem dizer quer o mineiro Foi pro Rio de Janeiro Pra comprar um bonde.
O tropicalismo não podia ignorá-lo:
O táxi, o bonde, a luta Meu amor é indiferente Minha mãe, meu pai, a rua. (Caetano Veloso e Torquato Neto).
Milton Nascimento e Fernando Brant tiveram um bonde no caminho do bar:
E lá vinha o bonde No sobe e desce ladeira E o motorneiro parava a orquestra um minuto Para me contar casos Da campanha da Itália.
Por fim a glória suprema: virou tema musical de novela:
Menina dos cabelos longos Quero te levar pra longe No primeiro bonde a gente pode partir.
É isso aí, a expectativa cresce, e a qualquer momento o bonde poderá ser novamente no nosso cancioneiro popular, talvez numa marchinha chamada Quem foi rei...
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