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Quero chorar, tenho lágrimas |
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(1 voto, média de 1.00 em 5)
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Escrito por Renato Vivacqua
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| | Se misturarmos num caldeirão os filmes mexicanos da década de 50, “Suplício de uma Saudade”, “Love Story”, as novelas cubanas, o Grand-Guignol, os livros “Coração”, “A cabana do Pai Tomáz” e “Dama da Camélias”, a estranha beberagem séria, garanto, menos lacrimogênica que as letras de canções brasileira que vamos carpir aqui. Comecemos pelos clássicos. O mais famoso sem dúvida é o “Coração Materno”. De Vicente Celestino, regravado por Caetano Veloso. A história é horripilante: a amada do campônio numa brincadeira sádica pede-lhe o coração da mãe como prova de amor e o debilóide cumpre ao pé da letra:
E ela disse ao campônio a brincar Se é verdade tua louca paixão Parte já e pra mim vá buscar De tua mãe inteiro o coração E a correr o campônio partiu Como um raio na estrada sumiu E sua amada qual louca ficou A chorar na estrada tombou Chega à choupana o campônio Encontra a mãezinha ajoelhada a rezar Rasga-lhe o peito o demônio Tombando a velha aos pés do altar Tira do peito sangrando Da velha mãezinha o pobre coração E volta, a correr, proclamando Vitória! Vitória tem minha paixão.
Os últimos versos são de arrepiar e capazes de estarrecer qualquer cirurgião cardio-vascular:
Mas em meio da estrada caiu E na queda uma perna partiu E à distância saltou-lhe da mão Sobre a terra o pobre coração Nesse instante uma voz ecoou: Magoou-se pobre filho meu Vem buscar-me filhinho, aqui estou Vem buscar-me que ainda sou teu.
Muitos leitores poderão estranhar a ausência de “O Ébrio”, do mesmo Vicente. Eu explico: é que o drama do infortunado beberrão pareceria um conto de fadas diante do rol de dramalhões que farei desfilar aqui. Pelo mesmo motivo os saudosistas não encontrarão “Brinquedo do Destino”, “A Pequenina Cruz do teu Rosário”, “Lamentos” e outras. Mas o na vida real pacato e abstêmio Vicente não se sentirá desprestigiado com a omissão. Mostro seu tango “Matei”, um primor de vicissitudes. Conta o drama de um bom samaritano que recolheu “uma mulher doente, faminta e quase morta”, cuidou dela e acabaram por se amar. Um dia a ingrata se arrancou com o outro e ele ficou desesperado: “dormia nas sargetas, tal qual um cão sem dono.” O epílogo não é mole:
Farto de sofrer fui procurar um amigo Como último recurso fui lhe pedir abrigo Negou-me e disse-me ainda: jamais o conheci Virou-me então as costas quando uma voz eu ouvi Reconheci ser dela, na casa entrei à força Matei o falso amigo e a mulher que amei Estou arrependido, não terei mais conforto E desde aquele instante eu sinto que estou morto.
“Romance da Ceguinha” de René Bittencourt narra o reencontro de um sujeito com a mulher com quem tivera um romance. Quando a abandonou ela ficou cega! Tempos depois, oh irônico destino, tornaram a ficar frente a frente e o mais inverossímil é que ele não a reconheceu. Só depois que a infeliz desfiou sua desdita ligou os fatos. (Seria deficiente visual também?):
Fitando bem aquele meigo rosto Reconheci aquela a quem amei Aquela a quem causei tanto desgosto E que a sofrer no mundo abandonei Caí-lhe nos pés, pedindo-lhe perdão E ela a sorrir me perdoou.
Pelo menos houve o happy-end. Outra azarada surge na composição de Uriel Lourival, Pasmem, ficou caolha por ciúmes de Jesus!
Jesus quando te viu Não sei o que sentiu Não viu uma só luz Como a luz dos olhos teus. Indignado, então Na natureza entrou Repreendeu o sol, estrelas apagou E ardente de paixão Vingou-se como um Deus Roubando a luz de um dos olhos teus!
“Coração de Luto”, do gaúcho Teixeirinha causou comoção e gozação. Os conterrâneos do autor cantaram-no com lágrimas nos olhos enquanto nos outros Estados era batizados de “Churrasquinho de Mãe”. Dizem ter sido baseado em fato real:
O maior golpe do mundo Que eu tive na minha vida Foi quando com nove anos Perdi minha mãe querida Morreu queimada no fogo Morte triste e dolorida Que fez a minha mãezinha Dar adeus de despedida
Seria a mãe paralítica para se deixar queimar doloridamente? Denso mistério. Falando em paralisia mostro esta pérola que é “Aleijadinha”. De Francisco Lacerda e Bob Jr.:
Quando ainda era criança Já notava em sua infância Sofrer um grande amargor Aleijada a coitadinha Arrastando uma perninha Padecendo grande dor.
Apareceu um namorado que custou a descobrir que a amada era manca, pois ela namorava na janela. Levou-a então a um médico mas deu zebra:
Mas o esforço foi em vão Que na sua operação A coitadinha morreu
“Milagre do Retrato”, de Calandro e Sulino elege mais um deficiente físico. Um garoto perde o avô querido e perde também os movimentos (seria histérico o pobrezinho?), mas ainda teve mais sorte que a aleijadinha operada:
Mas quando ele fez dois Meu velho pai faleceu O menino sentiu tanto Que também adoeceu Com a tal paralisia Certo dia amanheceu Não podia mais andar Suas pernas enfraqueceu
Como o menino chamava pelo avô o pai deu-lhe o retrato, com o qual batia papo:
Volte de novo pra mim Meu querido vovozinho Depois que o senhor foi embora Eu fiquei aleijadinho.
E para encerrar, sabem o que aconteceu? Miracolo! O garoto saiu andando e o retrato chorou!
Pelo quarto ele andou Daquela fotografia Duas lágrimas brotou.
Como até agora só deu estropiado vamos a mais uma: “Calvário” letra de Márcio Rossi que trata de um tuberculoso que tem como último desejo beijar a mãe mas receia transmitir-lhe a doença:
Sobre uma cama carcomida, parecia Com a tristeza das mais tristes prisões, Ele rolava o dia inteiro, prisioneiro, Do mal terrível, que roía os seus pulmões Tão moço ainda e não vivia e nem morria Num meio termo de cortar o coração E quando a tosse o visitava, desfolhava Rosas de sangue, ainda quente, pelo chão. Era o seu íntimo desejo dar um beijo Numa velhinha que lhe dera o próprio ser Mas tinha medo de beijá-la e condená-la A sofrer tanto quanto ele, até morrer.
Hão de convir que “meio termo de cortar o coração” é um achado. Amado Batista em “Amor Batista em “Amor Perfeito” vai assistir o parto da esposa e só podia dar desgraça:
No hospital, na sala de cirurgia Pela vidraça eu via Você sofrendo a sorrir E seu sorriso aos poucos se desfazendo Eu vi você morrendo Sem poder me despedir.
“Flor do Mal”, primeira gravação de Vicente Celestino é um festival de xingação. Inicialmente o autor pede até com bons modos para ser esquecido, mas de repente se esquenta e baixa o nível:
Ah, hipócrito, fingido coração De granito ou gelo, maldição Oh espírito satânico, perverso Titânico chacal do mal Num lodaçal imerso.
O alvo dessas ofensas todas não é fruto da imaginação. Trata-se da atriz Arminda Santos, e o letrista, o poeta Domingos Correia se apaixonou por ela, não foi correspondido e no seu desvario pôs fim à vida. Mas antes desabafou... Teve seguidores em seus impropérios zoológicos. Silveira e Silveirinha não ficam atrás com “A víbora.”:
Tu és a cobra venenosa e maldosa Tu és a víbora do pecado mortal Tu és a sanha da tentação e maldade Tu és pecado original Tu és cobra silenciosa e preguiçosa És serpente de uma maldição de dor Fui esmagado no seu bote de artimanhas Dizendo a mim que me amava de verdade Eu dei-lhe tudo, meu amor e meu dinheiro Deixei-lhe tudo, meu amor e meu dinheiro Deixei meus filhos perdendo a dignidade.
“Perdão Emília”, um clássico da modinha conta a visita de um ex amante ao túmulo da companheira que se suicidara:
Perdão Emília se roubei-te a vida Se te fui impuro, infiel ousado Perdoa o vil que te atirou ao pó Perdão Emília, para um desgraçado!
O reconhecimento do mau-caratismo não adiantou muito, o fantasma de Emília saiu do túmulo e desancou-lhe:
Monstro tirano pra que vens agora Lembrar-me as mágoas que por ti passei? Fui nesta vida sem te amar, ditosa E desgraçada desde que te amei.
Parece que sua metralhadora verbal é poderosa, pelo que dizem os últimos versos:
E um baque surdo se ouviu na terra Acompanhado de uma agudo ai Enamorado do descanso eterno Mais uma vítima encerrar-se vai E quando alegre foi surgindo o dia E a natureza se mostrava bela Frio cadáver ali estava Caído junto ao sepulcro dela.
Será possível ser “enamorado do descanso eterno?”. Tem gosto pra tudo. Em “O Castigo da Cruz”, de José Fortuna e Mairoporã, aparece outro fantasma. Um boiadeiro herege tinha a mania de arrancar cruzes da estrada e também não podia ver uma vela acesa. Certa noite o profano se estrepou quando quis derrubar uma cruz:
Quando tentou arrancar, no braço da cruz pegou Aquela cruz de madeira num homem se trasnformou
Agora vem o melhor: o vulto deu-lhe um carão paternal:
O vulto falou: meu filho não pratiques isso mais Você tentou arrancar a cruz de seu próprio pai
O boiadeiro, é lógico caiu duro e quando voltou a si virou o maior carola:
Para a alma do seu pai ele fez uma oração E se encontra uma cruz rezando perde perdão
O trânsito louco não podia ser um tema excluído. Comecemos pela “Carreta Maldita” cujo título mais apropriado seria “Carreta Desalmado”, de Nelson Blanc em Maury Câmara:
Não reparem se estou chorando Eu não esqueço o que aconteceu Naquela casa à beira da estrada Foi onde o meu amor morreu Na frente ela fez um jardim Lindas flores vivia plantando Na descida a carreta veio E estava sem freio e a ela atropelou Carreta maldita Que triste cena Matou o meu amor Dele não teve pena
Só faltava ir tomar satisfação com a carreta. Outra desgraça motorizada é “Boletim Escolar”, de Vicente Dias e Rubens Avelino: o menino chegava da escola trazendo o boletim, vê o pai do outro lado da rua, atravessando afoito e...
Mas o destino cruel Neste momento fatal Meu filho na correria Não viu fechado o sinal E a brecada do carro Me fez perder os sentidos Vendo tombar sob as rodas Meu inocente querido
Não sei como conseguem ser tão trágicos. Continuemos com o morticínio. “Triste Ocorrência” de Jack e Abel. O rapaz saiu do interior para ser polícia na cidade grande mas nunca mais deu notícia à família. Passaram-se os anos, o pai enviuvou e resolveu procurar o filho sumido. Eis o que aconteceu:
E na cidade em que o filho morava Morreu o velho em um atropelamento O policial que foi investigar o caso Ficou surpreso quando viu os documentos Nas remoção daquele corpo já sem vida, Banhando em prantos confessou (?) ao delegado “Estou fazendo a mais triste ocorrência, Pois este homem é o paizinho adorado.”
Ora faça-me o favor, o cara desaparece no mundo, não reconhece o próprio pai estatelado no chão e ainda “se banha em prantos?” Atropelamento insólito se dá em “História de um boiadeiro”. O rapazola deixa a casa paterna e volta anos depois comandando uma boiada. De repente dá-se um estouro e os animais pisoteiam uma pessoa que caminhava. Já adivinharam quem era?
Quando a boiada passou Dei um grito de aflição Ao ver que era minha mãe O andante do estradão Já na última agonia Mas me deu sua benção Vi morrer nos meus braços Minha mãe do coração.
Outra fatalidade se desencadeia em “Lágrimas de Pai”. Um pobre lixeiro do interior mandou durante 26 anos dinheiro para o filho estudar na capital e ser advogado (ou o cara é meio tapado ou explorou o pai). No dia da formatura compareceu todo empolgado e veja o que aconteceu:
O doutor vendo seu pai Fez que não o reconheceu Essas palavras do filho Pro velho muito doeu: Vá embora, vá embora Se o povo o vê assim, Cabeludo, mal vestido...
O velho saiu em prantos e virou mendigo:
Mendigando viu findar os dias seus E, um dia, um desastre na cidade, O velho acabou de padecer Apanhando pelo trem, pobre velhinho Sobre os trilhos acabava de morrer!
Mas não acabou, o velho panaca antes de findar ainda falou: “num sorriso, encobrindo a própria dor”.
- Deixo a vida satisfeito por que pude Assistir a meu filho ser doutor!
O Vicente foi outro que saiu de sua cidadezinha para aventurar-se na capital, só que virou bandidão mas com resquícios de amor filial, pois mandava dinheiro para o pai. Um dia chega às mãos do velho que era analfabeto, um jornal com a foto do filho na primeira página. Levou para um amigo ler e só então ficou sabendo que peça criara:
O velhinho envergonhado sumiu povoação No outro dia cedinho, na beira do ribeirão Encontraram o velho morto, com aquele jornal na mão A vergonha estraçalhou seu honesto coração Quem matou o pobre velho foi a palavra LADRÃO!
A guerra excerce um fascínio muito grande nos compositores. Dois bons valores da música caipira, Tonico e Capitão Balduíno cantam “Vingança de Soldado”. Este sobreviveu à luta mas no seu retorno à Pátria levou chumbo de outra forma.
Tava o doutor delegado Na sua mesa sentado Quando um homem ali chegou O moço vinha fardado Mostrando que era soldado A sua história contou.
O herói contava com alguém esperando-o na volta, só que parece não ter se lembrado de avisar:
Na guerra tive vitória Ganhei medaia de glória Tive prêmio de Nação Daquela que em frente o artá Jurou o meu nome honrá Ganhei vergonha e traição Me prenda seu delgado Pode chamá seus soldado Lhe entrego o rife doutô Este sabre que na guerra Lutou pela vossa terra Hoje matô dois traidô.
Outra composição agora de Praense e Sebastião Araújo dá continuidade ao tema com a mesma falta de originalidade. O pracinha pensa que a noiva o espera mas ela casa com outro. Quando volta sai à procura dela e vai indagar ao próprio marido se a conhece, mostrando-lhe o retrato O homem fica epumando:
O homem vendo o retrato, louco, enciumado ficou Arrancou um punhal e no Pedrinho cravou, Porém foi preso na hora que fez tal desatino Mandaram chamar Maria, a esposa do assassino Maria, ao ver o cadáver, triste golpe recebeu Caiu pedindo perdão a quem por ela morreu! Abraçando o corpo inerte de quem tanto lhe quis bem Beijando os lábios gelados deixou a vida também!
Pensaram que acabou a saga militar? Eu vos apresento “Sêlo de Sangue”, drama epistolar do combatente sádico que na carta à amada mandou que ela tirasse o selo e guardasse como lembrança:
Tirou o selo e por baixo Com sangue viu assinado: “Estou sem as duas pernas Num hospital internado”. Lurdinha por seu bem amado Pra que Deus mandasse ele, Mesmo que fosse aleijado.
Fiquei impressionado com o tamanho do sêlo. O Pessoal parece fissurado pela guerra. São composições relativamente recentes, quando o conflito já acabou há 47 anos! “Cruel Destino” de Carreirinho é sem dúvida shakespeariano. “Helena, uma linda moça, filha de um rico doutor,” é apaixonada por um moço pobre “mas muito trabalhador.” A família prometeu-a em casamento a um francês abonado e a jovem inconformou-se:
Recolheu-se em seu quarto Com o revólver carregado.
O rapaz pobre tomou uma decisão:
Ele foi ao cemitério E na campa debruçou É o derradeiro presente Heleninha que te dou Cravou o punhal no peito Coração atravessou.
Agora duas histórinhas de cadeia: “Encerrado” de Chrisóstomo e Dalvan mostram que desgraça pouca é bobagem. O filho encarcerado é visitado pela mãe e o que acontece?
Mãezinha por que está em silêncio? E aperta entre nós a grade gelada Jesus levou mamãezinha Morreu num sorriso, comigo abraçada.
“A Presidiária” de Sebastião F. Silva e Arthur Moreira é um exemplo comovedor de mau-caratismo. O marido flagrou a esposa com o amigo e suicidou-se. Ela foi condenada e o amigo urso ficou caladinho:
Foi julgada por assassinato Mas foi suicídio Ela era minha secretária E eu era seu melhor amigo Hoje ela é presidiária E eu carrego remorso comigo.
Em “A Menina da Viola” Zé Coqueiro dá asas à imaginação e fala sobre a Menina, virtuosa da viola que desperta a inveja do dono da fazenda cuja filha não tinha nenhum talento:
A ira do milionário Foi aumentando dia a dia Curtindo a cruel idéia De dar fim na pobre Maria Foi seguindo o seu instinto Maria mandou matar A viola emudeceu O povo se revoltou Dando a ele a mesma sorte De Maria se vingou.
“Mulher da vida” tem o arrependido subtítulo de “não faça jamais como eu fiz.” O protagonista que só pode ser pirado, se apaixonou por uma mundana e chegando um dia ao bordel invadiu o quarto onde ela estava e:
Me vi completamente louco De arma na mão Quebrando a porta do quarto Atirei sem perdão. O preço do amor Eu peguei na prisão!
Como não pretendo ser superado pela tevê em se tratando de relação incestuosa apresento-lhes a novela “Armadilha do Destino”, onde um tal Ronaldo enviuvou, deu a filha para outra família criar e caiu no mundo enchendo a cara durante vinte anos. Até que um dia:
Mas pelo destino cruel, sem piedade Em cidade dali muito ausente Um casal de ébrios beijavam e sorriam O pai e a filha, se amando inocentes
Ronaldo perguntou à “Flor do Salão” (presumo que estavam num cabaré) sobre se passado chegamos ao clímax:
Ronaldo enxergando a realidade Gritou na ansiedade do último adeus Perdoe-me filha, estou morrendoE fiquei sabendo que seu pai sou eu! E ela, sentindo remorso e dor, Com o rosto em terror, vendo o pai que morria Não pode escapar do punhal da tristeza Naquela surpresa, morreu pai e filha!
Viram que metáfora fantástica: “Punhal de tristeza.” E o colapso duplo? Vamos agora dar uma guinada. O Carnaval pressupõe alegria, catar-se, descontração, mas mesmo assim alguns espíritos de porco aparecem para colocar ranço na festa maior. “Coração de Bruto”, de Paris Delfino e Philadelpho lançado no carnaval de 62 dá uma alfinetada no Teixeirinha:
Que história triste seu Teixeirinha contou Sua mãezinha, coitada Foi brincar com fogo Amanheceu toda queimada. Sai, seu bruto Tens o coração de luto.
“Panela de Pressão” de José Astholfi é um exemplo de humor negro dos melhores:
Estourou ô, ô, ô A panela de pressão A Rita bela se queimou Coitada ficou toda pintada Com o caldo de feijão Ela que era tão boa Com seu corpo violão Agora não sai de casa Vive só na solidão.
Isso é lá tema pra carnaval? “Menino Inteligente” outro muito pouco carnavalesco:
Menino inteligente Não joga papel na rua Um carro o atropela E a culpa é sua.
“Mulher de Palhaço” põe por terra o frio conceito de que o “Show deve continuar”. Carnaval de 1965.
Foi uma discussão banal Que a mulher do palhaço se matou Num modo tão brutal Enquanto sua função Ele exercia no picadeiro O povo lhe aplaudia Mas de repente tudo mudou E o palhaço chorou.
Garanto que após serem triturados por este espetáculo de morbidez musical os leitores vão passar três meses no mínimo só querendo escutar cantigas de roda.
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